Pronunciamento do Presidente do Fórum das Américas, Dr. Mario Garnero


Senhoras e senhores,

É com especial satisfação que, em nome do Fórum das Américas, damos as boas-vindas a São Paulo ao senhor Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan.
Para nós é uma honra muito especial que o Secretário-Geral tenha encontrado a oportunidade, em meio a sua intensa agenda de encontros e negociações, de compartilhar conosco sua visão de mundo, sua perspectiva de estadista; seu olhar de arquiteto de um sistema internacional que se constrói na virada para o novo milênio.
Gostaria de agradecer, neste instante, a presença de todos e os esforços daqueles que trabalharam com entusiasmo e afinco para hoje vivenciarmos esse momento de interação com o líder internacional da paz e do desenvolvimento, com o número um das Nações Unidas.
Em nossa platéia, senhor Secretário-Geral, encontram-se representantes dos mais variados setores da vida social, política e cultural do Brasil; personalidades que, na sociedade civil e no estado, querem ouvir sua mensagem e consigo aprender.
Pessoas que querem também avançar, por mais singelo que seja, um esforço, uma contribuição sincera para que logremos os elevados e nobres objetivos da carta das Nações Unidas.
Quero dizer, a título pessoal, que me apraz reconhecer que Vossa Excelência e eu somos homens do mesmo tempo.
Contamos a mesma idade neste mundo. Experimentamos o horror da Grande Guerra, os anos plúmbeos da confrontação bipolar, a busca constante do desenvolvimento econômico e social.
Ademais, permitam-me afirmar, logo de saída, que a cidade e o Estado de São Paulo por um lado, e a ONU, por outro, também apresentam muitas identidades.
Como o Secretário-Geral bem sabe, o Brasil é uma terra onde vive gente que ama a paz, que acorreu a este país em busca de uma nova vida, de felicidade e prosperidade.
É também uma terra de contrastes, e nesse sentido, talvez São Paulo seja o mais perfeito microcosmo brasileiro.
Aqui encontram-se, em maior ou menor medida, algumas das características mais extraordinárias de nosso País.
Suas riquezas naturais, sua capacidade de empreendimento; sua paciência e tolerância. Sua predisposição em buscar o novo, em progredir sempre.
Sua aceitação do "outro" fez de São Paulo um ponto de encontro de gente de todos os quadrantes do mundo.
Persistem aqui, contudo, certas marcas que há muito devíamos ter superado.
Um acentuado desequilíbrio na distribuição de renda, uma cruel violência urbana; níveis de pobreza que resultam da má administração de nossos vastos recursos humanos e materiais, e não de uma vocação para a estagnação, ou da insensibilidade ante a desigualdade.
É por essa realidade, onde convivem avanços e atrasos no campo sócio-econômico, que o Presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu certa vez ser mais correto entender o Brasil não como um país subdesenvolvido, mas como um país injusto.
Os paulistas e os brasileiros, no entanto, somos um povo generoso, com sentido de contribuição, de cooperação e participação; com espírito de liderança.
No brazão de São Paulo e no coração dessa gente está inscrita a expressão non ducor, duco - não sou liderado, lidero.
Esse sentido de liderança aumenta nossa apreciação por seu trabalho na condução da ONU. Pela "revolução silenciosa" que está liderando na modernização da organização e na busca eficiente da paz e do desenvolvimento.
Sobre esses pilares de liderança e cooperação, conseguimos construir nessa região do Brasil o mais importante parque industrial do hemisfério sul; uma dinâmica e sofisticada rede de serviços de toda ordem; uma infra-estrutura acadêmica e tecnológica que se rivaliza com as mais prestigiosas do planeta; uma agricultura intensiva em insumos e resultados.
Nesse ambiente, opera uma das mais criativas e influentes comunidades empresariais do mundo.
Desde o dono do pequeno açougue da vila até o grande empresário do supermercado metropolitano; desde a singela indústria familiar de quintal até a potente empresa de denso agregado tecnológico - todas essas variantes da capacidade de empreeender, de gerar empregos e negócios, de produzir riqueza e prosperidade, estão aqui presentes.
É nesse contexto, senhor Secretário-Geral, que vislumbramos um interessante encontro entre as capacidades que acabo de mencionar e as características contemporâneas do sistema internacional e, portanto, da ONU.
Muito acertadamente, Vossa Excelência elegeu, como uma de suas prioridades ã frente da organização, aproximar a ONU do setor privado, da área empresarial.
Como bem expressou em tantas ocasiões, e mais particularmente em seus contatos com a comunidade de empresários e investidores nas reuniões de Davos, na Suíça, a ONU não tem mais como seus interlocutores apenas os estados nacionais ou outros organismos internacionais.
Essa multiplicação de interlocutores, e porque não dizer, de sócios e parceiros, é um traço da própria evolução da comunidade internacional.
Estamos assistindo e participando, a meu ver, da emergência de uma "sociedade civil mundial", que se sustenta no acesso ampliado ao mercado global; nos velozes fluxos de negócios e investimentos; na partilha do respeito e da proteção aos direitos humanos; na utilização sustentada e criteriosa dos recursos naturais.
Essa percepção deriva também da natureza dos desafios que enfrentamos neste final do segundo milênio.
Como Vossa Excelência cunhou certa vez com bastante precisão, muitos de nossos dilemas de hoje são "problemas sem passaporte"; transfronteiriços em seu alcance, e portanto transnacionais em seus efeitos.
O tráfico de drogas, de armas e pessoas, o crime organizado e as novas formas de terrorismo vieram se somar e dão molde contemporâneo aos elementos de fragmentação que tradicionalmente se resumiram à não-aceitação do diálogo, à intolerância, à desconfiança e à guerra.
Ao ajudar na eliminação desses vetores fragmentários, as Nações Unidas prestam um alto serviço aos negócios, aos investimentos, ao reforço, enfim, do desenho de uma economia verdadeiramente global.
A ONU atua também para que se atenuem os desníveis entre o grau de desenvolvimento dos vários países. Com efeito, seu "Relatório sobre a África", cuja versão em português tivemos a honra de traduzir e há pouco passar-lhe às mãos, é um perfeito exemplo de como os temas de segurança, desenvolvimento e direitos humanos estão inter-relacionados; de como políticas concertadas nesses três campos devem orientar-se para os países em desenvolvimento.
Para o empresariado paulista e brasileiro, interagir como uma estrutura como as Nações Unidas complementa um perfil internacional que se expande progressivamente.
No âmbito regional, estamos participando construtivamente do Mercado Comum do Cone Sul - o MERCOSUL -, que abriu novos caminhos para os negócios e para a integração de países que compartilham tantos traços históricos e culturais comuns.
No plano hemisférico, a comunidade de negócios é chamada a interagir no processo de construção de uma Área de Livre Comércio das Américas - a ALCA -, que comporta grandes desafios e oportunidades para países que, durante tanto tempo, privilegiaram o isolacionaismo comercial e o desenvolvimento autárquico como elementos-chave de uma estratégia para o progresso econômico e social. Tem-nos auxiliado, na expansão dos negócios e dos esforços de integração, o ambiente de pleno vigor democrático que ora experimentamos em nossa região, e, em especial, no Brasil.
De fato, parece haver uma íntima relação entre as liberdades econômicas e políticas; entre os direitos civis do homem em sua atuação como cidadão, produtor e consumidor. O fechamento econômico e político obscurece os direitos humanos, incrementa a insegurança internacional, alimenta a desconfiança e o arbítrio. No passado, eu mesmo, como tantos outros no Brasil, sofri violações e abusos. Com espírito cívico e confiança na justiça brasileira, livre e independente, reavi meus direitos, tive meus pleitos acolhidos - posso orgulhar-me de ser cidadão de um país democrático.
Senhor Secretário-Geral, senhoras e senhores.
Não há mais valiosa infra-estrutura para o florescimento dos negócios e dos investimentos internacionais do que aquela formada pela paz e segurança, pelo respeito aos direitos humanos e pela educação de um povo. É por essas constatações que entendo, como empresário e cidadão, que a comunidade de negócios no Brasil e a sociedade civil deste país como um todo podem juntar-se com entusiasmo aos esforços da ONU. Estamos estruturando, assim, a Associação das Nações Unidas-Brasil, que, na condição de organização não-governamental, e em coordenação com o sistema das Nações Unidas e o governo brasileiro, buscará oferecer um modesta contribuição à concretização dos objetivos das Nações Unidas. Valendo-nos do padrão consagrado pelas associações em mais de 80 países, e baseando-nos numa perspectiva de sociedade civil e comunidade empresarial, estamos dispostos a ampliar a mensagem de uma renovada, moderna e eficiente organização, que reconhece que a dimensão dos desafios de nosso tempo não pode ser enfrentada unicamente pelo estado, pelos governos. Essa participação do empresariado nas grandes questões internacionais não é nova no Brasil ou no mundo. A própria ONU é, em grande medida, o resultado de visionários, de sonhadores mesmo, que privilegiaram, a partir de sua atuação como empresários e cidadãos do mundo, os temas do entendimento, da cooperação, da negociação e da liberdade. Contudo, a participação do empresariado não basta. Há que acrescer representantes de trabalhadores, de grupos étnicos e religiosos, de juristas, de peritos em relações internacionais, de militares, de professores e acadêmicos, de profissionais da imprensa.
Essa é, senhor Secretário-Geral, a composição incial dos Conselhos de nossa Associação, juntos aqui, com essa platéia interessada e participante, para saudá-lo e homenageá-lo. Inspirado em seu Relatório sobre a África, que traduzimos e faremos divulgar, em agosto, desde Lisboa, para os países de língua portuguesa, digo que temos o mesmo credo:
Sem liberdade, não há progresso social;
Sem democracia, não há desenvolvimento;
Sem educação, saúde, nutrição adequada, não há cidadania;
Sem postos de trabalho, não há povos livres;
Sem justiça independente, não há instituições públicas sólidas;
A sociedade justa, igualitária, forte e democrática, é construída com coragem, com o apoio de todos que aqui estão, dispostos a contribuir com o presente e o futuro do Brasil, do MERCOSUL, da América Latina, da África, do mundo. Estamos aqui presentes para colaborar, a partir de sua luminosa inteligência, para o estreitamento das relações entre "A ONU e a Sociedade no Limiar de um Novo Milênio".
Muito obrigado.