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Palestra
"A ONU e a Sociedade no Limiar de um Novo Milênio",
proferida pelo Secretário-Geral da Organização
das Nações Unidas, Sr. Kofi Annan
Senhoras e Senhores:
É
um prazer estar aqui. E tem sido um privilegio visitar o Brasil
como primeira escala da minha viagem pela América Latina.
A transformação por que passou a América
Latina, na última década, proveu uma fonte de
inspiração para todo o mundo. A região
entrou numa era de democracia e estabilidade mantida pelos pilares
da governabilidade e da prática do direito. Será
ainda mais uma inspiração para o mundo ver a região
construir um futuro onde esses pelares tornaram-se inabaláveis.
E muito da base para aquele futuro, eu me atreveria, repousa
em pessoas como os senhores e senhoras aqui presentes. Repousa
no desenvolvimento da sociedade civil. Porque a democracia é
fundamentalmente o produto e não a criadora da sociedade
civil.
Uma sociedade civil forte promove uma cidadania responsável
e faz com que as formas democráticas de governo funcionem.
Uma sociedade civil débil apoia um governo autoritário
que mantém a sociedade fraca.
Eu sei que o Brasil compreendeu bem esta parceria simbiótica.
A Excelentíssima Primeira-Dama, Sra. Ruth Cardoso, falou,
no ano passado, de modo eloqüente sobre essa parceria,
numa conferência da UNESCO nas Nações Unidas.
Discorreu sobre o papel singular que o setor não-governamental,
não lucrativo pode desempenhar como agente de mudança
e como parceiro no desenvolvimento.
Falou sobre os programas de alfabetização para
jovens, neste País, financiados pelo setor privado, empreendidos
por universidades e apoiados pela UNESCO, que levaram a alfabetização
para milhares de pessoas no Brasil. E a Sra. Cardoso, com propriedade,
observou: "Nós sabemos, com a experiência,
que o Estado por si só não é capaz de enfrentar
os desafios de um desenvolvimento eqüitativo, sustentável
e que a participação da sociedade civil é
essencial." A natureza da diplomacia está mudando
em toda parte para absorver a sociedade civil. Tradicionalmente,
a diplomacia tem sido uma atividade conduzida exclusivamente
por atores estatais e um assunto debatido exclusivamente por
especialistas pagos. Nas Nações Unidas, algumas
décadas atrás, os Governos de Estados Membros
eram virtualmente os únicos atores no processo internacional;
organizações não-governamentais eram vistas
como defensoras, aliadas e mobilizadoras da opinião pública
em favor dos objetivos e valores da Carta das Nações
Unidas. Existe agora uma consciência crescente entre o
público de que qualquer projeto nacional é influenciado
pelas condições internacionais - seja o meio ambiente,
seja o Mercosul, sejam negociações de propriedade
intelectual, seja a reforma do Conselho de Segurança
das Nações Unidas. E essa consciência tem
sido combinada com o engajamento. Um marco no engajamento da
sociedade civil em processos intergovermentais foi alcançado
aqui no Brasil seis anos atrás.
A Conferência
das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento
no Rio de Janeiro tornou-se um ponto focal para ONGs (Organizações
Não-Govenamentais) envolvidas em toda parte com o meio
ambiente e o desenvolvimento sustentável, que compreenderam
que a agenda da cúpula era a sua agenda. A Conferência
atraiu um nível sem precedentes de engajamento de base,
desde o momento das preparações, passando pelos
encontros até o follow-up de hoje. E o Rio tornou-se,
para os dias atuais, o referencial para a avaliação
de futuras conferências e cúpulas em termos de
resposta da sociedade civil - seja a cúpula sobre mulheres
em Beijing, seja a Conferência sobre Direitos Humanos
em Viena, seja o Habitat em Istambul, seja a Conferência
sobre População no Cairo ou a Conferência
sobre mudança climática em Kyoto, dezembro último.
A revolução global de informação
transformou a sociedade civil diante de nossos olhos. Citemos
a Campanha Internacional para banir as minas terrestres - a
força condutora por detrás do Tratado do ano passado
para banir a produção, estocagem, e exportação
e uso dessas abomináveis armas. A Campanha demonstrou
que não existem limites para o que a sociedade civil
pode atingir em parceria com Governos. Uma consciência
crescente, entre pessoas comuns, um movimento de base, de convicção,
combinado com coragem, fez com que os Governos reconhecessem
que o custo das minas terrestres de longe ultrapassava a necessidade
de utilizá-las. Impulsionada pelas demandas de cidadãos
em toda parte, promovida sem descanso por organizações
regionais e não-governamentais, a eliminação
de minas terrestres tornou-se uma verdadeira causa global.
Como fizeram isso? Mil ONGs em 60 países estavam unidas
pela convicção firme e uma arma que provaria derradeiramente
ser mais poderosa que a mina terrestre: o e-mail. Ou, mais recentemente,
observem o papel da sociedade civil em defender o estabelecimento
de uma corte criminal internacional eficaz e justa. A conferência
encontra-se em andamento, em Roma, para o estabelecimento de
tal corte, o elo que faltava no sistema legal internacional.
No decorrer do processo, a coalizão das ONGs em favor
de uma corte criminal internacional uniu uma ampla rede de centenas
de ONGs e especialistas em direito internacional para o desenvolvimento
de estratégias e fomentar a consciência. Mais uma
vez, a chave para sua rede foi o e-mail e a Rede Mundial de
Computadores. É razoável pensar que a relação
entre as Nações Unidas e a sociedade civil mudou
além de todo reconhecimento. Cinco anos atrás,
quando eu era Sub-Secretário-Geral para manutenção
da Paz, ocorreu um incidente na Somália que nos ensinou
- tanto nas Nações Unidas quanto na comunidade
das ONGs - uma lição sobre a importância
da compreensão mútua. Com a Operação
das Nações Unidas na Somália veio o primeiro
mandato de uma operação de paz para incluir a
proteção de funcionários humanitários.
Na ocasião, as ONGs - 40 delas - decidiram fazer um piquenique
na praia de Mogadishu. Quando os funcionários das ONGs
foram atacados lá, eles solicitaram a proteção
das forças de paz das Nações Unidas. A
primeira reação do comando das Nações
Unidas foi: "por que eles não disseram que iriam
fazer isso?"
Conto essa história algumas vezes para ilustrar um fosso
cultural entre ONGs e as Nações Unidas que está
rápida e felizmente desaparecendo. Se a agenda global
deve ser apropriadamente observada uma parceria verdadeira entre
ONGs e as Nações Unidas não é uma
opção; é um imperativo. Hoje, antes que
a comunidade internacional outorgue às Nações
Unidas um mandato para agir, freqüentemente as ONGs já
se encontram a postos no local de ação. Elas são
indispensáveis operadoras em áreas que vão
da destruição de minas aos direitos humanos, do
cuidado da saúde a refugiados. E elas são vistas
não só como organizações que disseminam
informação pública ou provêem serviços
mas também como organizações que moldam
a política pública. Apesar das manifestações
crescentes de uma sociedade civil global cada vez mais robusta,
as Nações Unidas têm sido, no entanto, inadequadamente
equipadas para engajá-la e torná-la um parceiro
verdadeiro no nosso trabalho. Quando assumi, então, a
posição de Secretário-Geral e embarquei
numa revolução silenciosa para reformular as Nações
Unidas, a cooperação com ONGs tornou-se um tema
crucial nas minhas propostas. Isso adveio do reconhecimento
de que nosso trabalho comum será mais bem sucedido se
for apoiado por todos atores interessados da comunidade internacional.
No contexto das reformas que introduzi no ultimo ano, todos
os departamentos substantivos das Nações Unidas
estão designando um oficial ONG de ligação
para facilitar o acesso à Organização.
No nível do país, quando apropriado, o sistema
das Nações Unidas está criando mais oportunidades
para a cooperação tripartite com a sociedade civil.
Programas de treinamento para os funcionários das Nações
Unidas incluirão um componente dedicado à cooperação
com a sociedade civil. Isto será refletido no currículo
da Escola dos Funcionários das Nações Unidas.
Desde que assumi meu mandato, tenho similarmente conferido uma
alta prioridade à construção de uma relação
mais sólida com a comunidade empresarial e à reconstrução
da confiança do setor privado nas Nações
Unidas. A base para essa nova parceria é sólida.
A Organização não é mais prisioneira
de ideologias conflitantes. Nós reconhecemos plenamente
que empreendimentos empresariais são o principal criador
de riqueza, empregos e prosperidade, sem o qual o desenvolvimento
não pode ocorrer, nem a paz pode ser sustentada. Eis
porque nós nos engajamos num diálogo muito construtivo
com grupos empresariais tais como a Câmara Internacional
de Comércio. E eis porque nós infundimos uma nova
consciência por toda a família das Nações
Unidas de que o trabalho com a comunidade empresarial pode trazer
benefícios para todos. De fato, todas as agências
das Nações Unidas estão procurando formas
práticas de traduzir o potencial de cooperação
em ação concreta. Um dos maiores desafios que
nós enfrentamos hoje é assegurar uma economia
internacional aberta e baseada na lei. Os mercados são
globais, enquanto os governos permanecem locais. Economias nacionais
estão se tornando mais e mais interdependentes. Nossa
escolha hoje é entre consistência regulatória
e caos e entre estender os benefícios da globalização
e reservá-los para somente poucos.
As Nações Unidas têm um interesse veemente
em assegurar que os mercados permaneçam abertos e que
o engajamento global prevaleça sobre uma orientação
intimista. Uma vez aqui presente na poderosa casa empresarial
de São Paulo - que, se fosse um país, seria a
vigésima maior economia do mundo - permitam-me sugerir
algumas formas práticas de interação entre
o meio empresarial e as Nações Unidas. Primeiramente,
as senhoras e senhores podem fazer com que seus pontos de vista
sejam ouvidos nos debates das Nações Unidas, nas
conferências mundiais e no esboço de convenções
internacionais. O meio empresarial foi uma importante presença
na Cúpula do Rio. Em abril último, a Comissão
sobre Desenvolvimento Sustentável conduziu um diálogo
de base entre delegados do meio empresarial, sindicatos, grupos
de cidadãos e governos. As Nações Unidas
não só estão abertas à sua participação;
a Organização precisa da experiência das
senhoras e dos senhores. Em segundo lugar, a comunidade empresarial
pode cooperar em projetos. Isso está assumindo formas
variadas, um sinal de grande flexibilidade e criatividade. Alguns
empresários vêem grande valor em promover causas.
Companhias de seguro, por exemplo, estão preocupadas
com o custo de desastres causados por mudanças climáticas.
Outros, como os bancos, estão ajudando na promoção
de investimento através de micro projetos financiados
para ajudar pessoas pobres, especialmente mulheres, a começarem
seu próprio negócio.
Outros ainda estão focalizando o know-how. Companhias
de tecnologia de informação estão contribuindo
com assistencia técnica a um sistema alfandegário
desenvolvido pela Conferência das Nações
Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, a fim de melhorar
a eficiência do comércio em países em desenvolvimento.
E então, obviamente, existe a mobilização
de recursos como temos visto na generosidade do Sr. Ted Turner,
Rotary Clubs e muitos outros. Tal generosidade é facilmente
combinada com a benevolência que resulta para a companhia
ou negócio ao final. Neste último ano, tenho participado
de uma série de encontros envolvendo eminentes líderes
do meio empresarial e ONGs. E, no ano de 2000, ao lado da Assembléia
Milênio das Nações Unidas, ONGs civis estarão
realizando um Fórum Milênio que proverá
uma excelente oportunidade para mais tarde cimentar esta relação.
À medida que nos dirigimos para o final da década,
as agendas das ONGs estão crescentemente, focalizando
formas para implementarem os objetivos alcançados nas
conferências dos anos noventa. Mas espero que as senhoras
e senhores continuem a compartilhar conosco sua vigilância
na identificação de futuras necessidades e prioridades,
pois num mundo onde a mudança é uma condição
essencial da vida, estas continuarão a desenvolver-se.
Este mundo em transformação nos apresenta novos
desafios. Nem todos os efeitos da globalização
são positivos; nem todos os atores não-estatais
são bons. Tem havido um crescimento nefasto das atividades
dos traficantes de drogas, contrabandistas de armas, lavagem
de dinheiro, exploradores de jovens para prostituição.
Essas forças da "sociedade não-civil"
somente podem ser combatidas através da cooperação
global, com a ajuda da sociedade civil. Senhoras e Senhores,
a tecnologia da informação conferiu à sociedade
civil mais poder para se tornar a verdadeira guardiã
da democracia e da governabilidade em toda parte. Os opressores
não podem mais se esconder nos limites de suas fronteiras.
Uma sociedade civil fortalecida, unida através de todas
fronteiras com a ajuda das comunicações modernas,
não lhes permitirá fazê-lo. De certo modo,
a sociedade civil tornou-se a nova superpotência - pessoas
determinadas a promover melhores padrões de vida numa
liberdade mais ampla. Cada movimento começa em algum
lugar - usualmente da ruptura. Não existem limites ao
que pode ser alcançado pelas campanhas de amanhã
- campanhas ainda não concebidas, para causas ainda não
articuladas, defendidas por corações e mentes
ainda em formação. E freqüentemente bastam
aquelas mentes únicas acreditarem que suas missões
são as mais importantes, e também serão
provavelmente capazes de torná-las as mais bem sucedidas.
Obrigado.
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