Pronunciamento do Presidente do Fórum das Américas, Dr. Mário Garnero,

na Cerimônia de Abertura da Conferência

Excelentíssimo (repetir para cada membro da Mesa)
Senhor Presidente da Câmara dos Deputados,
Senhor Secretário William Cohen,
Senhora Cônsul-Geral dos Estados Unidos em São Paulo,
Senhores Deputados,
Senhores Representantes Empresariais,
Senhoras e Senhores,
Meus amigos,
É uma grande honra para mim, em nome do Fórum das Américas, dar início a esta Conferência "Riscos e Oportunidades: A Nova Economia Global e a ALCA." Quero agradecer a todos que não mediram esforços e a alguns que vieram de longe prestigiar esta ocasião.Agradeço especialmente ao grande apoio institucional que tivemos, particularmente do Grupo Estado e suas organizações, da Revista IstoÉ e da Gazeta Mercantil, e de tantas instituições empresariais e acadêmicas.Senhoras e senhores, Vivemos tempos de incertezas e expectativas. Nosso objetivo nestes dois dias é refletir sobre os rumos da economia mundial. Examinar as oportunidades e obstáculos que se apresentam com a Área de Livre Comércio das Américas. Faremos isto da perspectiva do empresariado e demais setores da sociedade civil de Brasil e Estados Unidos.O Fórum das Américas nasceu há 35 anos. Foi inspirado pela liderança de Juscelino Kubistchek com a Operação Pan-Americana. Foi delineado, com a contribuição de Robert Kennedy, para aprimorar o diálogo em nosso continente. Àquela época, eu começava uma vida empresarial. E desses grandes líderes, Kubistchek e Kennedy, pude partilhar da visão de que os países, ao início do terceiro milênio, se agrupariam em grandes blocos econômicos.Por isso, nesta Conferência de hoje, nos deparamos com um sentido de realização e desafio.E, para analisar estes desafios, contamos com uma verdadeira constelação do mundo dos negócios, da universidade e da mídia.

Teremos um debate do mais alto nível. Vamos avaliar o impacto que a nova geopolítica e o processo negociador da ALCA exercerão sobre as economias do nosso Continente. Esta iniciativa privilegia a sociedade civil e o setor privado dos dois países. Brasil e Estados Unidos são os atores-chave para o estabelecimento de uma área de livre comércio efetiva e harmoniosa. Senhoras e senhores,
O contexto internacional de hoje reflete os efeitos do mais virulento ataque terrorista da História. São muitas as indagações. É grande a apreensão. Trata-se de um período de crise. Mas como lembra a cultura chinesa, crise é a conjugação de riscos e oportunidades. A incerteza não pode levar à paralisia. Não devemos perder o ímpeto da integração hemisférica. Brasil e Estados Unidos têm de prosseguir na liderança da configuração da ALCA. Minha percepção é de que, no Brasil, em lugar de tirar partido das muitas oportunidades que surgem no trato com a maior economia do mundo, às vezes nos dividimos em falsos antagonismos. Iniciativas como o Mercosul e a ALCA não podem ser vistas como opções excludentes. Mais do que um destino ou uma opção, estreitar relações de investimento e comércio com os Estados Unidos e avançar na agenda da ALCA é, acima de tudo, uma oportunidade para o Brasil. Muitos já chegaram a essa conclusão, e estão prontos a tirar proveito dessas possibilidades. Basta lembrar o recente estudo do Council on Foreign Relations de Nova York, que afirma: "o Brasil não é uma promessa para o futuro. É uma potência econômica do presente". Pela ótica da paridade do poder de compra, o PIB brasileiro é de 1 trilhão de dólares. O dobro de Rússia ou Índia. Nesse quadro, o Brasil é a quinta economia do mundo. E em meio a graves turbulências internacionais, nossos índices anuais de inflação foram de um dígito durante os últimos seis anos - o mesmo nível médio de estabilidade monetária dos países da OCDE. Há cinco vezes mais investimentos dos Estados Unidos no Brasil do que na China. No ano 2000, o item número um da pauta de exportações do Brasil foram os aviões, com vendas de 4 bilhões de dólares. O Brasil é o segundo maior mercado do mundo em telefones celulares, helicópteros e aparelhos de fax 50% dos internautas na América Latina são do Brasil - o dobro do México. São números que consolidam o Brasil como líder da "nova economia" na América Latina. Se bem negociada, a ALCA será uma alavanca para a economia brasileira. Mas, nesse processo, a prosperidade dos países do Mercosul também é decisiva. Temos no Cone Sul o maior mercado latino-americano, com um PIB combinado de mais de US$ 1,5 trilhão, em termos de paridade aquisitiva, bem mais da metade do PIB da América Latina. Mas a verdade é que a ALCA vai bater à porta de todos. Para nós, empresários brasileiros, é fundamental expandir a abrangência geográfica. Alimentar a ambição por novos mercados. Como já se disse, o empresariado brasileiro, a sociedade brasileira, não pode enfrentar este competitivo cenário comercial com timidez e passividade. Globalização não rima com umbigo grudado no balcão. Temos de estabelecer contato direto com os principais atores da economia dos Estados Unidos, tanto na indústria quanto nas finanças, e alguns deles estão aqui hoje. Realizar estudos de direito comparado, arbitragem, propriedade intelectual. Há muito a fazer. Isso não quer dizer que o Brasil deva esquecer o Mercosul. Tivemos com ele uma fórmula útil para incrementar o comércio entre os países do Cone Sul, praticamente inexistente no início dos anos 90. No entanto, as cifras e as possibilidades de expansão são modestas para uma economia como a brasileira.O peso do Brasil vale muito mais na mesa de negociação do que a retórica política que sustenta a prioridade do Mercosul. A ordem do dia para a promoção comercial brasileira, com ou sem a ALCA, tem de ser o acesso, amplo e desimpedido, ao gigantesco mercado interno dos Estados Unidos. Está muito claro que as barreiras, sejam tarifárias ou não, têm de ser diminuídas pelos Estados Unidos. Simultaneamente, o Brasil tem de melhorar sua capacidade interna, fazer um esforço maior. É fundamental que a comunidade empresarial brasileira construa estruturas mais robustas para promover suas exportações e atrair investimentos dos Estados Unidos. E isto com ou sem a ajuda do governo. Mas o caminho melhor é o da parceria, da promoção de ferramentas inovadoras de diplomacia econômica. No ano de 2000, ocorreu o auge da prosperidade americana, após dez anos de contínua expansão econômica. Neste marco, mesmo após a brusca desvalorização do real em 1999, o Brasil foi o único país dentre as dez maiores economias do mundo a contabilizar déficit comercial com os Estados Unidos. Algo não está certo. Não podemos permitir que as dificuldades nas exportações brasileiras de dois produtos de baixo valor agregado, como o aço e o suco de laranja, dominem o panorama de nosso comércio. E para isso precisamos também da participação dos Parlamentos, casas de negociação por excelência. E nisso aproveito para saudar, Deputado Aécio, a memória de seu avô, um exímio negociador - o Presidente Tancredo Neves, com quem tanto aprendemos. Como Tancredo, é preciso negociar muito, e negociar bem. Senhoras e senhores, É a partir da crescente participação da sociedade civil que vamos aumentar o papel que as tecnologias da informação, o agrobusiness, a pesquisa e desenvolvimento, o turismo e o entretenimento ocupam em nossa agenda comum.Com o Fórum das Américas, vamos inaugurar um processo renovado de intercâmbio e aproximação.Ao final desta Conferência, redigiremos uma "Carta de São Paulo", com observações e recomendações aos Presidentes Fernando Henrique e George Bush. Mais tarde teremos a íntegra de toda esta nossa reflexão. Construiremos assim um rico acervo de formulações e respostas a este complexo quadro geopolítico e econômico que afeta nossas empresas, nossos negócios, nossas vidas. Mas, desde já, uma tarefa é clara.Assegurar que o interesse e as negociações para a ALCA avancem, apesar de um cenário político internacional incerto - esse é o papel dos Estados Unidos. Fortalecer a capacidade de diversificar e promover suas exportações e atrair investimentos produtivos - eis o desafio para o Brasil.