RISCOS
e OPORTUNIDADES da ALCA
Fonte:
OESP - 26/10/2001
Lançado há sete anos em Miami, na Primeira Cúpula
das Américas, o projeto da Área de Livre Comércio
das Américas (Alca) ainda é um assunto misterioso
para a maioria dos americanos e dos brasileiros. No entanto,
é um dos temas de maior importância para a diplomacia
continental. Até 2005, os governos de 34 países
tentarão definir as condições de formação
de uma Área de Livre Comércio das Américas
- ou enterrar a idéia por algum tempo, talvez por um
longo período. Não se pode entrar às
cegas nessa aventura, nem rejeitá-la sem uma boa avaliação
de seus benefícios potenciais, que podem ser consideráveis.
Nesta semana, especialistas brasileiros e estrangeiros reuniram-se
em dois seminários para discutir o assunto. Um foi
realizado em Brasília, no Congresso Nacional. O outro,
em São Paulo, por iniciativa do Fórum das Américas,
com apoio do Estado.
Esse projeto de integração, iniciativa da Casa
Branca, pode ser apenas uma extensão do Acordo de Livre
Comércio da América do Norte (Nafta). Nesse
caso, será subordinado a concepções econômicas
formuladas em Washington. Não servirá para o
Brasil. Mas poderá ser algo diferente - um esquema
de integração muito mais equilibrado, com boas
oportunidades comerciais para todos os participantes. Nesse
caso, poderá abrir excelentes oportunidades para o
Brasil e para seus parceiros do Mercosul. O rumo das negociações
dependerá não só dos governos, mas da
participação de empresários, trabalhadores
e cidadãos organizados de várias formas. Boas
informações serão essenciais para que
essa participação seja ampla e eficaz.
O debate brasileiro tem sido balizado por duas posições
extremas. De um lado, há os que só apontam vantagens
na participação brasileira, mesmo num projeto
moldado segundo os critérios de Washington. São
os que defendem a abertura incondicional da economia, como
se isso bastasse para criar empresas competitivas e multiplicar
as oportunidades econômicas. Do outro, estão
os que sustentam que o Brasil não está preparado
para a integração hemisférica.
O governo brasileiro opõe-se a novos acordos de abertura
incondicional. Além disso, rejeita uma integração
nos moldes do Nafta, como deixou claro, mais uma vez, o ministro
da Fazenda, Pedro Malan. É fácil apoiar seu
ponto de vista. O comércio brasileiro é mais
diversificado que o mexicano, em termos geográficos.
Para o Brasil, a integração tem de significar
muito mais que a absorção de investimentos para
a redução de custos de empresas dos Estados
Unidos.
A idéia de que o Brasil não esteja preparado
para maior abertura também é inaceitável.
Os opositores da Alca descrevem a indústria brasileira
como incapaz de competir. É uma concepção
errada. Muitas empresas brasileiras são perfeitamente
capazes de concorrer no mercado internacional - e o têm
demonstrado. Mas precisam de condições internas
e externas mais favoráveis a uma concorrência
equilibrada. O objetivo, portanto, deve ser a criação
dessas condições, tanto pela negociação
externa quanto pela realização de reformas internas
- a começar pela tributária. Se aquela percepção
negativa prevalecer, os produtores dispostos a batalhar no
mercado internacional perderão excelentes oportunidades.
Serão prejudicados também os consumidores e
trabalhadores brasileiros. Ganharão os empresários
de velho estilo, que preferem a segurança medíocre
de uma economia fechada e cartorial. Coincidem nessa posição
tanto os empresários menos inovadores quanto uma parte
da esquerda brasileira - notadamente aquela que defende o
protecionismo agrícola europeu.
Há quem argumente que a economia brasileira é
muito menor que a dos Estados Unidos e que isso impossibilita
uma boa integração. Se esse argumento fosse
levado a sério noutros continentes, países como
Holanda, Bélgica, Dinamarca, Áustria, Coréia
do Sul, Taiwan e Cingapura seriam economias fechadas. A Itália
talvez não tivesse aderido ao projeto do Mercado Comum
Europeu, nos anos 50. Nem a Espanha e muito menos Portugal,
mais recentemente.
Entre a pressão americana e as tolices nacionais, é
preciso encontrar o caminho balizado ao mesmo tempo pela prudência
e pela visão das oportunidades. Debates como os desta
semana são úteis para isso.
O
Estado de S. Paulo / Editoriais / 26 de Outubro de 2001