A diplomacia brasileira
não pode ignorar a gravidade da crise argentina,
que não tem solução à vista.
O Brasil já fez todas as concessões, no âmbito
do Mercosul, para aliviar a situação da Argentina.
Chegou, agora, o momento de rever as estratégias
de integração comercial regional.
O Mercosul não deve ser abandonado pelo Brasil. Mais
do que um acordo comercial, ele é um fator de estabilidade
política e de inserção da região
- conseqüentemente, do Brasil - nos grandes fluxos
comerciais globais. É e continuará sendo um
eficiente instrumento de negociação nos foros
internacionais, como voz única dos países
do Cone Sul.
Mas as exceções abertas na união aduaneira,
para atender às necessidades prementes da Argentina,
demonstram que o Mercosul não pode mais ser visto
pelo Brasil como uma parceria comercial privilegiada, com
precedência sobre todas as demais iniciativas de integração
regional.
Numa série de três artigos publicados no Estado
- que constituem um dos textos básicos que serão
apresentados no seminário sobre "Riscos e Oportunidades
- A Nova Economia Global e a Alca", que conta com o
apoio deste jornal -, Fred Bergsten, diretor do Instituto
de Economia Internacional, e Mário Garnero, presidente
da Brasilinvest e do Fórum das Américas, mostram
que chegou a hora de o Brasil repensar sua parceria estratégica
com os Estados Unidos, colocando-se, ambos os países,
na liderança dos esforços para a eliminação
dos obstáculos que se erguem à criação
da Área de Livre Comércio das Américas
(Alca).
De fato, é isso o que o Brasil deve fazer. Na primeira
fase das negociações, a firme posição
do Itamaraty garantiu um tempo precioso - pelo menos cinco
anos - para que os agentes econômicos brasileiros
se preparassem para um novo choque de abertura comercial,
uma vez que a criação da área hemisférica
de livre comércio significará maior acesso
ao mercado norte-americano e dos demais países americanos,
mas também o escancaramento de nosso mercado à
concorrência estrangeira. A indústria brasileira
tem até o final de 2005 para se adaptar aos novos
tempos.
Mas em maio de 2002 começam as negociações
sobre acesso aos mercados, isto é, sobre a eliminação
das barreiras tarifárias e não-tarifárias
e a elaboração das listas de exceção.
Essa é a parte substantiva, verdadeiramente importante,
do processo de criação da área hemisférica
de livre comércio. As empresas brasileiras precisam
saber, até lá, a natureza e a intensidade
do impacto que receberão com a abertura comercial,
para que os negociadores possam elaborar as listas de preferências
e exceções tarifárias da maneira mais
favorável para o País.
O Congresso dos Estados Unidos, por sua vez, disporá
de tempo para aprovar a Autoridade de Promoção
Comercial, o fast track, sem o qual não serão
vencidas as desconfianças de que a abertura comercial
hemisférica será assimétrica, beneficiando
mais os Estados Unidos, em detrimento dos demais países
da área.
Fred Bergsten e Mário Garnero observam ainda, com
grande acerto, que os contenciosos que envolvem as exportações
brasileiras de produtos de pequeno valor agregado, como
os aços e os sucos, não devem paralisar o
desenvolvimento do comércio bilateral. Os Estados
Unidos são um imenso mercado para produtos brasileiros,
desde que nossos industriais resolvam diversificar e dinamizar
a pauta de exportações. A luta pela derrubada
das barreiras protecionistas norte-americanas deve prosseguir,
mas há oportunidades de expansão comercial
e atração de investimentos que não
podem ficar rígida e previamente condicionadas à
eliminação dos impedimentos tarifários
e não-tarifários à entrada de alguns
produtos brasileiros.
Trata-se, mais uma vez, de um exercício pragmático
de avaliação dos custos e benefícios
de uma maior aproximação comercial com os
Estados Unidos e não de uma questão teórica
de afirmação dos princípios do livre
comércio.
Amanhã e depois, o Fórum das Américas
e o Instituto de Economia Internacional estarão promovendo
em São Paulo o já citado seminário
sobre "Riscos e Oportunidades - A Nova Economia Global
e a Alca", reunindo exclusivamente empresários
brasileiros e norte-americanos, sem a participação
de representantes governamentais. A partir da perspectiva
dos representantes do setor privado dos dois países
- os principais interessados na integração
dos mercados - é que se poderá avaliar os
benefícios do projeto de integração
hemisférica.
O Estado
de S. Paulo / Editoriais / 21 de Outubro de 2001