REVISÃO da ESTRATÉGIA de INTEGRAÇÃO

Fonte: OESP - 21/10/2001


A diplomacia brasileira não pode ignorar a gravidade da crise argentina, que não tem solução à vista. O Brasil já fez todas as concessões, no âmbito do Mercosul, para aliviar a situação da Argentina. Chegou, agora, o momento de rever as estratégias de integração comercial regional.
O Mercosul não deve ser abandonado pelo Brasil. Mais do que um acordo comercial, ele é um fator de estabilidade política e de inserção da região - conseqüentemente, do Brasil - nos grandes fluxos comerciais globais. É e continuará sendo um eficiente instrumento de negociação nos foros internacionais, como voz única dos países do Cone Sul.
Mas as exceções abertas na união aduaneira, para atender às necessidades prementes da Argentina, demonstram que o Mercosul não pode mais ser visto pelo Brasil como uma parceria comercial privilegiada, com precedência sobre todas as demais iniciativas de integração regional.
Numa série de três artigos publicados no Estado - que constituem um dos textos básicos que serão apresentados no seminário sobre "Riscos e Oportunidades - A Nova Economia Global e a Alca", que conta com o apoio deste jornal -, Fred Bergsten, diretor do Instituto de Economia Internacional, e Mário Garnero, presidente da Brasilinvest e do Fórum das Américas, mostram que chegou a hora de o Brasil repensar sua parceria estratégica com os Estados Unidos, colocando-se, ambos os países, na liderança dos esforços para a eliminação dos obstáculos que se erguem à criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
De fato, é isso o que o Brasil deve fazer. Na primeira fase das negociações, a firme posição do Itamaraty garantiu um tempo precioso - pelo menos cinco anos - para que os agentes econômicos brasileiros se preparassem para um novo choque de abertura comercial, uma vez que a criação da área hemisférica de livre comércio significará maior acesso ao mercado norte-americano e dos demais países americanos, mas também o escancaramento de nosso mercado à concorrência estrangeira. A indústria brasileira tem até o final de 2005 para se adaptar aos novos tempos.
Mas em maio de 2002 começam as negociações sobre acesso aos mercados, isto é, sobre a eliminação das barreiras tarifárias e não-tarifárias e a elaboração das listas de exceção. Essa é a parte substantiva, verdadeiramente importante, do processo de criação da área hemisférica de livre comércio. As empresas brasileiras precisam saber, até lá, a natureza e a intensidade do impacto que receberão com a abertura comercial, para que os negociadores possam elaborar as listas de preferências e exceções tarifárias da maneira mais favorável para o País.
O Congresso dos Estados Unidos, por sua vez, disporá de tempo para aprovar a Autoridade de Promoção Comercial, o fast track, sem o qual não serão vencidas as desconfianças de que a abertura comercial hemisférica será assimétrica, beneficiando mais os Estados Unidos, em detrimento dos demais países da área.
Fred Bergsten e Mário Garnero observam ainda, com grande acerto, que os contenciosos que envolvem as exportações brasileiras de produtos de pequeno valor agregado, como os aços e os sucos, não devem paralisar o desenvolvimento do comércio bilateral. Os Estados Unidos são um imenso mercado para produtos brasileiros, desde que nossos industriais resolvam diversificar e dinamizar a pauta de exportações. A luta pela derrubada das barreiras protecionistas norte-americanas deve prosseguir, mas há oportunidades de expansão comercial e atração de investimentos que não podem ficar rígida e previamente condicionadas à eliminação dos impedimentos tarifários e não-tarifários à entrada de alguns produtos brasileiros.
Trata-se, mais uma vez, de um exercício pragmático de avaliação dos custos e benefícios de uma maior aproximação comercial com os Estados Unidos e não de uma questão teórica de afirmação dos princípios do livre comércio.
Amanhã e depois, o Fórum das Américas e o Instituto de Economia Internacional estarão promovendo em São Paulo o já citado seminário sobre "Riscos e Oportunidades - A Nova Economia Global e a Alca", reunindo exclusivamente empresários brasileiros e norte-americanos, sem a participação de representantes governamentais. A partir da perspectiva dos representantes do setor privado dos dois países - os principais interessados na integração dos mercados - é que se poderá avaliar os benefícios do projeto de integração hemisférica.

O Estado de S. Paulo / Editoriais / 21 de Outubro de 2001