EUA e BRASIL RUMO À ALCA (3)

Fonte: OESP - 12/10/2001

A prioridade para a política de comércio exterior do Brasil, isto é, a principal atração para a economia brasileira no que diz respeito às relações hemisféricas, com ou sem a Alca, tem de ser o acesso aberto ao gigantesco mercado interno dos Estados Unidos. Além disso, o Brasil precisa atrair capital dos Estados Unidos para setores com valor agregado de alta tecnologia. Para esse fim, está muito claro que as barreiras, sejam tarifárias ou não, têm de ser diminuídas pelos Estados Unidos.
Simultaneamente, o Brasil tem de melhorar sua capacidade interna, e fazer um esforço maior. O Brasil tem de atuar com mecanismos inovadores em várias partes dos Estados Unidos para fortalecer a inserção de sua arte e cultura e estimular os americanos a visitar o Brasil como turistas. O Brasil tem de aumentar sua participação nos centros de pesquisas e universidades da Nova Inglaterra, especialmente em Boston e na área metropolitana de Boston, onde é produzida a tecnologia da informação mais avançada, que é o produto mais valioso do século 21.
O Brasil perdeu o "timing", o momento oportuno para fechar um acordo de status preferencial com os Estados Unidos, de um ponto de vista bilateral. A visita do presidente Fernando Henrique Cardoso aos Estados Unidos poderia ter ajudado nesse ponto, mas essa oportunidade foi desperdiçada. Durante as negociações com vista à Alca, a equipe brasileira preferiu dar ênfase ao programa, em vez de ao conteúdo. Isso, juntamente com outras preocupações políticas e de segurança em outras regiões do mundo, fará os Estados Unidos dirigirem parte significativa de sua atenção para o seu relacionamento com a União Européia e o Leste da Ásia.
Eis por que é tão importante para as comunidades empresariais brasileira e americana reformular a escolha do momento oportuno para as relações comerciais bilaterais e a parte substancial da Alca. No campo comercial, o Brasil precisa apoiar-se em estruturas mais robustas para promover suas exportações ou atrair investimentos dos Estados Unidos. Cidades como Nova York, a capital comercial e financeira do mundo, ou centros empresariais dinâmicos como Los Angeles, Dallas ou Seattle não contam com canais adequados que permitam o florescimento de investimentos e do comércio com Brasil e do Brasil. Os empresários precisam associar-se ao governo brasileiro a fim de se proverem ferramentas inovadoras de diplomacia econômica. O primeiro passo será a abertura de um escritório do Fórum das Américas em Miami, onde desejamos fomentar joint-ventures entre companhias brasileiras e americanas com vista a competir sob o guarda-chuva da Alca.
Há amplo espaço para incrementar as relações comerciais Brasil-Estados Unidos. No auge da prosperidade americana, depois de dez anos de expansão econômica, e mesmo depois da brusca desvalorização do real em 1999, o Brasil foi o único país entre as dez maiores economias do mundo que continuou a ter déficit no comércio com os Estados Unidos. A estratégia comercial do Brasil em relação ao mercado americano precisa, de fato, ser repensada. Em resumo, não podemos permitir que as dificuldades nas exportações brasileiras de dois produtos de baixo valor agregado, como o aço e o suco de laranja, paralisem por inteiro o comércio bilateral. Precisamos também proporcionar às autoridades de ambos os países elementos que as capacitem a acabar com a exigência recíproca de vistos, que dificulta o turismo e os negócios, de forma a se adaptarem ao ritmo dinâmico que ambos os países desejam para suas relações.
Com a crescente participação de agentes da sociedade civil, ambos os países precisam aumentar o papel que desempenham em nossa agenda comum as tecnologias da informação, o agrobusiness, a pesquisa e desenvolvimento, o turismo e o entretenimento. Fortalecer a capacidade do Brasil de diversificar e promover suas exportações para os Estados Unidos e atrair investimentos norte-americanos para o Brasil - esses são os objetivos desse jogo para o Brasil. Assegurar que a agenda da Alca avance, apesar de um cenário político internacional incerto - esse é o papel dos Estados Unidos. C. Fred Bergsten é diretor do Instituto de Economia Internacional em Washington; Mário Garnero é presidente do Grupo Brasilinvest e do Fórum das Américas em São Paulo.

O Estado de S. Paulo / Espaço Aberto / 16 de Outubro de 2001