A prioridade
para a política de comércio exterior do Brasil,
isto é, a principal atração para a
economia brasileira no que diz respeito às relações
hemisféricas, com ou sem a Alca, tem de ser o acesso
aberto ao gigantesco mercado interno dos Estados Unidos.
Além disso, o Brasil precisa atrair capital dos Estados
Unidos para setores com valor agregado de alta tecnologia.
Para esse fim, está muito claro que as barreiras,
sejam tarifárias ou não, têm de ser
diminuídas pelos Estados Unidos.
Simultaneamente, o Brasil tem de melhorar sua capacidade
interna, e fazer um esforço maior. O Brasil tem de
atuar com mecanismos inovadores em várias partes
dos Estados Unidos para fortalecer a inserção
de sua arte e cultura e estimular os americanos a visitar
o Brasil como turistas. O Brasil tem de aumentar sua participação
nos centros de pesquisas e universidades da Nova Inglaterra,
especialmente em Boston e na área metropolitana de
Boston, onde é produzida a tecnologia da informação
mais avançada, que é o produto mais valioso
do século 21.
O Brasil perdeu o "timing", o momento oportuno
para fechar um acordo de status preferencial com os Estados
Unidos, de um ponto de vista bilateral. A visita do presidente
Fernando Henrique Cardoso aos Estados Unidos poderia ter
ajudado nesse ponto, mas essa oportunidade foi desperdiçada.
Durante as negociações com vista à
Alca, a equipe brasileira preferiu dar ênfase ao programa,
em vez de ao conteúdo. Isso, juntamente com outras
preocupações políticas e de segurança
em outras regiões do mundo, fará os Estados
Unidos dirigirem parte significativa de sua atenção
para o seu relacionamento com a União Européia
e o Leste da Ásia.
Eis por que é tão importante para as comunidades
empresariais brasileira e americana reformular a escolha
do momento oportuno para as relações comerciais
bilaterais e a parte substancial da Alca. No campo comercial,
o Brasil precisa apoiar-se em estruturas mais robustas para
promover suas exportações ou atrair investimentos
dos Estados Unidos. Cidades como Nova York, a capital comercial
e financeira do mundo, ou centros empresariais dinâmicos
como Los Angeles, Dallas ou Seattle não contam com
canais adequados que permitam o florescimento de investimentos
e do comércio com Brasil e do Brasil. Os empresários
precisam associar-se ao governo brasileiro a fim de se proverem
ferramentas inovadoras de diplomacia econômica. O
primeiro passo será a abertura de um escritório
do Fórum das Américas em Miami, onde desejamos
fomentar joint-ventures entre companhias brasileiras e americanas
com vista a competir sob o guarda-chuva da Alca.
Há amplo espaço para incrementar as relações
comerciais Brasil-Estados Unidos. No auge da prosperidade
americana, depois de dez anos de expansão econômica,
e mesmo depois da brusca desvalorização do
real em 1999, o Brasil foi o único país entre
as dez maiores economias do mundo que continuou a ter déficit
no comércio com os Estados Unidos. A estratégia
comercial do Brasil em relação ao mercado
americano precisa, de fato, ser repensada. Em resumo, não
podemos permitir que as dificuldades nas exportações
brasileiras de dois produtos de baixo valor agregado, como
o aço e o suco de laranja, paralisem por inteiro
o comércio bilateral. Precisamos também proporcionar
às autoridades de ambos os países elementos
que as capacitem a acabar com a exigência recíproca
de vistos, que dificulta o turismo e os negócios,
de forma a se adaptarem ao ritmo dinâmico que ambos
os países desejam para suas relações.
Com a crescente participação de agentes da
sociedade civil, ambos os países precisam aumentar
o papel que desempenham em nossa agenda comum as tecnologias
da informação, o agrobusiness, a pesquisa
e desenvolvimento, o turismo e o entretenimento. Fortalecer
a capacidade do Brasil de diversificar e promover suas exportações
para os Estados Unidos e atrair investimentos norte-americanos
para o Brasil - esses são os objetivos desse jogo
para o Brasil. Assegurar que a agenda da Alca avance, apesar
de um cenário político internacional incerto
- esse é o papel dos Estados Unidos. C. Fred Bergsten
é diretor do Instituto de Economia Internacional
em Washington; Mário Garnero é presidente
do Grupo Brasilinvest e do Fórum das Américas
em São Paulo.
O Estado
de S. Paulo / Espaço Aberto / 16 de Outubro de 2001