EUA e BRASIL
RUMO À ALCA (2)
Fonte:
OESP - 12/10/2001
O
relacionamento entre os Estados Unidos e o Brasil é
promissor e está repleto de oportunidades perdidas.
É hora de vê-lo com novos olhos.
Principalmente se a Alca estiver destinada a tornar-se o instrumento
eficaz para promover o crescimento e a prosperidade que queremos
que seja.
De uma perspectiva americana, é fundamental que o Congresso
americano aprove uma nova Autoridade de Promoção
Comercial (APC) tão cedo quanto possível em
2002, para fomentar o comércio e os investimentos na
América Latina e adiantar as negociações
sobre a Alca. Pelo menos duas importantes vantagens se apresentarão
aos Estados Unidos ao completar a Alca. Primeiro, a Alca seria
um acréscimo bem-vindo aos esforços realizados
pela comunidade financeira internacional com vista ao fortalecimento
da economia dos países do Mercosul, principalmente
Argentina e Brasil. Além disso, o comércio dos
Estados Unidos com a América Latina, e com o Brasil
em particular, teria um crescimento magnífico com as
barreiras ao comércio e aos investimentos eliminadas
em todo o Hemisfério.
De acordo com recente estudo feito por Jeffrey J. Schott,
economista sênior do Instituto de Economia Internacional
de Washington, o comércio Brasil-Estados Unidos poderia
evoluir rapidamente de US$ 29 bilhões em 2000 para
US$ 86 bilhões, se a Alca estivesse em execução.
Mas, sem a APC, países que negociam acordos de comércio
com os Estados Unidos terão desconfianças para
empregar seus melhores esforços no processo de negociações.
Sem esse importantíssimo sinal de apoio político,
os países podem recear que as barreiras comerciais
mais duras dos Estados Unidos poderiam ainda estar em vigor
após as emendas feitas pelo Congresso, e toda a negociação
hemisférica estaria em perigo. A prosperidade dos países
do Mercosul é também decisiva para o sucesso
das negociações da Alca, pois é o maior
mercado latino-americano, com um PIB combinado de mais de
US$ 1 trilhão, o que representa mais da metade da PIB
da América Latina.
Os Estados Unidos e o Brasil assumem a co-presidência
das conversações da Alca em novembro de 2002,
e acreditamos que sua disposição para liberalizar
suas barreiras comerciais vai determinar o destino de toda
a empreitada. O acesso ao mercado dos Estados Unidos é
o principal prêmio para os países do Mercosul
na Alca; e a maior prioridade das negociações
pode continuar sendo a eliminação de barreiras
dos Estados Unidos em setores como agricultura, aço
e calçados.
Ministros da área de comércio concordaram em
Buenos Aires, em abril, que as negociações da
Alca deveriam terminar em janeiro de 2005 e ser postas em
execução no fim daquele ano. Contudo, eles adiaram
o começo das conversações sobre a parte
mais importante do acordo: determinar como as barreiras comerciais
devem ser derrubadas e se serão permitidas limitadas
exceções ao regime de livre comércio.
As questões sobre "acesso ao mercado" não
serão aceitas antes de maio de 2002, quando os negociadores
formularão "modalidades" para a condução
das conversações.
A demora no início das negociações para
acesso ao mercado pode ser, como afirma Jeffrey Schott, uma
"bênção disfarçada",
já que proporciona folga para tratar de problemas imediatos
que atingem a Argentina (e outros países da região
afetados por seus problemas). Acentua também a importância
de aprovação da legislação sobre
a APC tão logo seja possível, de modo a que
os negociadores dos Estados Unidos possam manter um papel
importante nas conversações sobre a Alca.
A conferência Riscos e Oportunidades - A Nova Economia
Global e a Alca está, na verdade, assumindo a forma
de uma discussão de alto nível sobre qual será
o impacto da Alca nas economias do continente. Mais especificamente,
como a Alca afetará empresas no Brasil e nos Estados
Unidos. Ela difere de outras conferências na medida
em que apresentará exclusivamente as perspectivas de
representantes dos setores privados dos dois países.
Funcionários do governo ou representantes de outras
nações hemisféricas não participarão.
Isso se baseia na visão de que Brasil e Estados Unidos
são os atores-chaves para levar a cabo com êxito
uma área de livre comércio harmoniosa e efetiva.
Não obstante, precisamos notar que a comunidade empresarial
brasileira está-se preparando para a Alca. De maneira
um tanto incompleta e não coordenada. Os brasileiros
não estão muito familiarizados com o comércio
exterior como um todo. Muito poucas empresas têm o perfil
necessário para fazer negócios no exterior.
Há falta de canais estratégicos para objetivos
de marketing, as exportações não são
suficientemente promovidas e faltam mecanismos adequados para
resolver disputas comerciais.
Claro que tudo isso está estreitamente relacionado
com o período em que a economia brasileira esteve fechada
à competição e aos investimentos estrangeiros.
Dos primeiros anos da década de 1960 até o final
da de 1980, a política comercial brasileira enfocava
principalmente a substituição de produtos importados
e suas ramificações, na forma de protecionismo
comercial e mercados superprotegidos. Como resultado, a comunidade
empresarial brasileira tornou-se imune à competição
cada vez mais brutal do mercado global.
A situação não é diferente no
que diz respeito à Alca. O fato é que só
uns poucos grupos empresariais estão-se preparando
seriamente para 2005. Canais tradicionais, como o Departamento
de Comércio Exterior do governo federal e as câmaras
de comércio estão longe de estar familiarizados
com as atividades diárias de pequenas e médias
empresas. A cobertura da imprensa brasileira nesse sentido,
embora tenha aumentado em certa medida este ano, é
ainda deficiente.
A verdade é que a Alca vai bater à porta de
todos. Apesar disso, pouco tem sido feito para aumentar a
consciência da comunidade empresarial brasileira sobre
a falsa interpretação da Alca tanto como opção
quanto como destino. O comércio sem restrições
em nossa parte do mundo é, acima de tudo, uma oportunidade
atraente para os empresários brasileiros. Para beneficiar-se
disso os líderes empresariais brasileiros precisam
expandir a abrangência geográfica e as ambições
de seus produtos. Preparar-se para a Alca significa, primeiro
e antes de tudo, estabelecer contato direto com os principais
atores da economia dos Estados Unidos, tanto na indústria
quanto nas finanças. É preciso realizar estudos
de direito comparado, arbitragem, propriedade intelectual,
e ainda há muito a fazer a esse respeito.
Isso não quer dizer que o Brasil deva esquecer o Mercosul.
É difícil, contudo, não concordar, ao
meno sem certa medida, com o economista Arturo Porzecanski,
quando afirma que "... atualmente, o Mercosul é
uma aliança econômica e diplomática fraca,
que diminui a credibilidade do Brasil aos olhos dos Estados
Unidos". O Mercosul foi, sem dúvida, uma fórmula
útil para incrementar o comércio entre os países
do Cone Sul, especialmente porque o comércio entre
essas nações era virtualmente inexistente no
início dos anos 1990. Embora os números relacionados
com as trocas comerciais tenham praticamente dobrado anualmente
antes da crise cambial brasileira de fevereiro de 1999, os
benefícios resultantes ainda são demasiado insignificantes
para uma economia como a do Brasil. Ainda que agregássemos
outros países sul-americanos, de acordo com a teoria
dos "módulos", os resultados ainda assim
seriam modestos em termos macroeconômicos. O peso do
Brasil propriamente dito vale muito mais na mesa de negociações
para a formação da Alca do que a retórica
política que sustenta a prioridade do Mercosul.C. Fred
Bergsten é diretor do Instituto de Economia Internacional
em Washington; Mário Garnero é presidente do
Grupo Brasilinvest e do Fórum das Américas em
São Paulo.
O
Estado de S. Paulo / Espaço Aberto / 12 de Outubro
de 2001