EUA e BRASIL
RUMO À ALCA (1)
Fonte:
OESP - 10/10/2001
Na seqüência do pior ataque terrorista da História,
manifestaram-se em todo o mundo apreensões quanto à
maneira como a economia global reagirá diante daqueles
atos iníquos. Fala-se até de uma "nova
ordem internacional" em que considerações
políticas e de segurança seriam recolocadas
em primeiro lugar na agenda internacional - como nitidamente
ocorreu durante a guerra fria. Iniciativas econômicas
e comerciais, da Área Livre de Comércio das
Américas (Alca) às rodadas de liberalização
da Organização de Comércio Mundial (OMC),
do Banco Mundial às reuniões do FMI, seriam
obstruídas; algumas, paralisadas.
De acordo com essas terríveis previsões, o fluxo
de investimentos internacionais seria drasticamente reduzido,
devido à perda de ímpeto dos projetos de integração
econômica regional. Não podemos permitir que
essas sombrias previsões prevaleçam. É
importante que o Brasil e os Estados Unidos não desistam
de sua liderança com vista à discussão
da configuração da Alca.
Os dois países não podem perder o pique em sua
agenda de "integração comercial" do
Hemisfério. A integração comercial compreende,
obviamente, negociações que apontam para a criação
da Alca. Neste ponto, o processo de negociação
oficial mostra que o Brasil tem, por assim dizer, uma "visão
operacionalmente diferente" da, por exemplo, dos Estados
Unidos.
Os Estados Unidos são da opinião de que o livre
comércio é uma força motriz tão
positiva para as economias que seus benefícios serão
sentidos imediatamente, assim que se estabelecer a área
de livre comércio. O Brasil, por outro lado, tem defendido
uma "abordagem modular". Isso equivale a dizer que
o Brasil queria ver consolidados o Mercosul e seus membros,
bem como outras experiências de integração
regional, antes de tentarmos a empresa mais ousada de promover
o livre comércio hemisférico de alto a baixo.
Seguimos de perto as primeiras rodadas das relações
entre o Brasil e os Estados Unidos, em seu desenvolvimento
desde que o presidente George W. Bush tomou posse em janeiro
último. A nossa impressão é que, às
vezes, em lugar de tirar partido das muitas oportunidades
que surgem no trato com a maior economia do mundo, o Brasil
se encontra dividido por falsos antagonismos.
Aos olhos do público brasileiro, as relações
bilaterais com os Estados Unidos continuam a ser em grande
medida confundidas com o futuro da Alca. As iniciativas do
Mercosul e da Alca são apresentadas como se fossem
mutuamente excludentes.
Mais do que destino ou opção, parece-nos que
estabelecer relações econômicas mais estreitas
com os Estados Unidos e alcançar progressos na agenda
da Alca constituem, acima de tudo, uma oportunidade extraordinária
para o Brasil.
Muitos já chegaram a essa conclusão e estão
prontos a tirar proveito dessas possibilidades. A sociedade
civil americana, por exemplo, por intermédio do Conselho
de Relações Exteriores (CRE), um "think-tank"
independente com sede em Nova York, apresentou recentemente
uma importante reflexão, num memorando dirigido ao
presidente Bush, sobre a importância de colocar as relações
Brasil-Estados Unidos num novo e mais alto patamar. Num texto
assinado por alguns dos mais eminentes nomes de empresas e
universidades americanas, a análise não se fundamenta
nas tradicionais considerações sobre a população,
o território e o potencial do Brasil para o futuro.
O memorando enfatiza que o Brasil é hoje um importante
protagonista.
O PIB brasileiro é o dobro do da Rússia ou da
Índia e, em termos de equivalência do poder de
compra - estimado em cerca de US$ 1 trilhão -, o Brasil
é a quinta maior economia do mundo. E é importante
destacar que os índices anuais de inflação
de um dígito durante os últimos seis anos colocam
o Brasil nos mesmos níveis médios de estabilidade
monetária dos países da OCDE. Ao entrarmos no
novo milênio, há cinco vezes mais investimentos
dos Estados Unidos no Brasil do que na China. No ano 2000,
o item número um da pauta de exportações
do Brasil foram os aviões, com vendas no montante de
cerca de US$ 4 bilhões. O Brasil é o segundo
maior mercado do mundo em telefones celulares e aparelhos
de fax; o quinto em CDs; e 40% dos internautas na América
Latina são do Brasil - o dobro do México. São
números que claramente consolidam o Brasil como líder
da "nova economia" na América Latina.
A leitura desse memorando deixa a impressão de que,
no que diz respeito às oportunidades da "nova
economia brasileira", os Estados Unidos estão
entorpecidos, especialmente quando comparados com a Europa.
A falta de uma presença empresarial americana mais
forte fez a Espanha alcançar os Estados Unidos como
líder em investimentos estrangeiros na economia brasileira.
Os Estados Unidos, por exemplo, perderam a chance competir
quando da definição dos padrões técnicos
para a última geração de telefones celulares
no Brasil, e a Agência Nacional de Telecomunicações
(Anatel) optou pelo sistema europeu, o que resultou em perda
de competitividade para as empresas de telefonia e equipamentos
norte-americanas. Em suma, o Brasil é um vibrante parceiro
econômico e, portanto, tem um papel-chave nas negociações
visando à integração hemisférica.
Quando se trata do modo como os Estados Unidos se devem relacionar
com a América Latina, "o Brasil é o fulcro".
Achamos que é hora de o Brasil fazer a sua parte por
conta própria, e repensar sua parceria estratégica
com os Estados Unidos. Esse é o exercício que
o Fórum das Américas - uma ONG brasileira -
está realizando com o apoio do Instituto de Economia
Internacional e a participação da comunidade
empresarial, de estudiosos e de organizações
não-governamentais. Um desses esforços terá
a forma de uma conferência que faremos em São
Paulo nos dias 22 e 23 de outubro, intitulada Riscos e Oportunidades
- A Nova Economia Global e a Alca.
C. Fred Bergsten é diretor do Instituto de Economia
Internacional em Washington; Mário Garnero é
presidente do Grupo Brasilinvest e do Fórum das Américas
em São Paulo.
O
Estado de S. Paulo / Espaço Aberto / 10 de Outubro
2001