A PRÓXIMA VÍTIMA

Fonte: JB 26/10/2001


Com os ataques terroristas do dia 11 de setembro, cerca de 6.500 pessoas de mais de 60 nacionalidades foram assassinadas de forma cruel por 19 doentes a bordo de três aeronaves comerciais. Essas foram as primeiras vítimas do episódio que marcou o inicio do novo século.
Em resposta à revolta da sociedade norte-americana e de todos aqueles homens de bom senso, o governo Bush - com suporte explícito e armado da Inglaterra, além da simpatia da maioria dos países integrantes da ONU - deu início a ataques armados visando a eliminar o terrorismo e suas bases. A caça a Osama Bin Laden e seus fiéis continua, mas novas vítimas começam a surgir. Crianças e adultos do triste e sombrio Afeganistão são atingidos mortalmente em dimensões que não temos condições de mensurar. Certamente não foram milhares, como aconteceu em Nova York, mas com certeza algumas dezenas de inocentes também pagaram alto preço por crime que não cometeram.
Não bastasse, surge o fantasma do bioterrorismo. Casos isolados ameaçam alastrar-se. Diante desse difícil e complexo cenário internacional, tivemos em São Paulo, no início da semana, o Fórum das Américas, para debater os novos desafios da economia global e da Alca. Reuniu mais de duas dezenas de palestrantes e debatedores brasileiros e norte-americanos. E o que se pôde concluir dos dois dias de intensos trabalhos foi que a Alca deve ser a próxima vitima. Não será prematuramente ''sepultada'', como alguns podem imaginar, mas levará um pouco mais de tempo - e trabalho - para que essa boa idéia se transforme em realidade.
Não podemos esperar que os congressistas e as lideranças norte-americanas estejam, agora, preocupadas com o futuro da Alca. Têm problemas mais sérios - e outras prioridades. Como essas negociações são complexas, conflitantes e afetam interesses de lado a lado, as lideranças máximas dos países envolvidos se farão necessárias. E, com certeza, o presidente Bush tem - e terá ainda por um bom tempo - suas atenções voltadas ao terrorismo e suas consequências.
Na qualidade de espectador privilegiado, pois vive em Washington, o senhor Christopher DeMuth, presidente do American Enterprise Institute, afirmou no fórum acreditar que na etapa seguinte do combate ao terrorismo o governo dos Estados Unidos tenha, nesse novo contexto internacional, necessariamente, de trabalhar na redução da pobreza e na incorporação dos países pobres. As desigualdades terão de começar a ser reduzidas e essa tarefa exigirá a prioridade que até aqui não foi dada pelas lideranças dos países desenvolvidos. Fala-se muito mas se faz muito pouco, concluímos nós.
No front interno, a situação não é muito diferente. Conquanto tenhamos de ''exportar ou morrer'', caso contrário teremos sérios problemas de balança de pagamentos, não podemos esperar que o governo Fernando Henrique vá colocar a bandeira da Alca na lista das suas principais prioridades. Integrarmos comercialmente todas as economias das Américas é um objetivo que deve ser alcançado - os riscos são bem menores do que as oportunidades existentes - mas, cremos nós, isso é tarefa para o próximo governo. Com eleições presidenciais para o ano que vem, as complexas negociações da Alca ficam para os futuros dirigentes.
Confirmando essa realidade, enquanto discutimos a Alca internamente os Estados Unidos estão colocando restrições adicionais às exportações de aço para aquele mercado. E assim será em todas aquelas situações onde o produtor norte-americano estiver afetado, com ou sem razão. É a reação natural - não necessariamente a correta - de um país que precisa dar satisfação e proteção à sua sociedade.
Portanto, o tempo, só o tempo, se encarregará de recolocar as coisas no seu devido lugar. Temos de internamente continuar nos preparando para quando a hora chegar - a qualquer momento a partir de 2003 -, pois queiramos ou não a Alca terá de ficar para depois que a tormenta passar.Alcides Amaral é jornalista e presidente da Associação Brasileira de Bancos Internacionais.

Jornal do Brasil / Opinião / 26 de Outubro de 2001