Com os ataques terroristas do dia 11 de setembro, cerca
de 6.500 pessoas de mais de 60 nacionalidades foram assassinadas
de forma cruel por 19 doentes a bordo de três aeronaves
comerciais. Essas foram as primeiras vítimas do episódio
que marcou o inicio do novo século.
Em resposta à revolta da sociedade norte-americana
e de todos aqueles homens de bom senso, o governo Bush -
com suporte explícito e armado da Inglaterra, além
da simpatia da maioria dos países integrantes da
ONU - deu início a ataques armados visando a eliminar
o terrorismo e suas bases. A caça a Osama Bin Laden
e seus fiéis continua, mas novas vítimas começam
a surgir. Crianças e adultos do triste e sombrio
Afeganistão são atingidos mortalmente em dimensões
que não temos condições de mensurar.
Certamente não foram milhares, como aconteceu em
Nova York, mas com certeza algumas dezenas de inocentes
também pagaram alto preço por crime que não
cometeram.
Não bastasse, surge o fantasma do bioterrorismo.
Casos isolados ameaçam alastrar-se. Diante desse
difícil e complexo cenário internacional,
tivemos em São Paulo, no início da semana,
o Fórum das Américas, para debater os novos
desafios da economia global e da Alca. Reuniu mais de duas
dezenas de palestrantes e debatedores brasileiros e norte-americanos.
E o que se pôde concluir dos dois dias de intensos
trabalhos foi que a Alca deve ser a próxima vitima.
Não será prematuramente ''sepultada'', como
alguns podem imaginar, mas levará um pouco mais de
tempo - e trabalho - para que essa boa idéia se transforme
em realidade.
Não podemos esperar que os congressistas e as lideranças
norte-americanas estejam, agora, preocupadas com o futuro
da Alca. Têm problemas mais sérios - e outras
prioridades. Como essas negociações são
complexas, conflitantes e afetam interesses de lado a lado,
as lideranças máximas dos países envolvidos
se farão necessárias. E, com certeza, o presidente
Bush tem - e terá ainda por um bom tempo - suas atenções
voltadas ao terrorismo e suas consequências.
Na qualidade de espectador privilegiado, pois vive em Washington,
o senhor Christopher DeMuth, presidente do American Enterprise
Institute, afirmou no fórum acreditar que na etapa
seguinte do combate ao terrorismo o governo dos Estados
Unidos tenha, nesse novo contexto internacional, necessariamente,
de trabalhar na redução da pobreza e na incorporação
dos países pobres. As desigualdades terão
de começar a ser reduzidas e essa tarefa exigirá
a prioridade que até aqui não foi dada pelas
lideranças dos países desenvolvidos. Fala-se
muito mas se faz muito pouco, concluímos nós.
No front interno, a situação não é
muito diferente. Conquanto tenhamos de ''exportar ou morrer'',
caso contrário teremos sérios problemas de
balança de pagamentos, não podemos esperar
que o governo Fernando Henrique vá colocar a bandeira
da Alca na lista das suas principais prioridades. Integrarmos
comercialmente todas as economias das Américas é
um objetivo que deve ser alcançado - os riscos são
bem menores do que as oportunidades existentes - mas, cremos
nós, isso é tarefa para o próximo governo.
Com eleições presidenciais para o ano que
vem, as complexas negociações da Alca ficam
para os futuros dirigentes.
Confirmando essa realidade, enquanto discutimos a Alca internamente
os Estados Unidos estão colocando restrições
adicionais às exportações de aço
para aquele mercado. E assim será em todas aquelas
situações onde o produtor norte-americano
estiver afetado, com ou sem razão. É a reação
natural - não necessariamente a correta - de um país
que precisa dar satisfação e proteção
à sua sociedade.
Portanto, o tempo, só o tempo, se encarregará
de recolocar as coisas no seu devido lugar. Temos de internamente
continuar nos preparando para quando a hora chegar - a qualquer
momento a partir de 2003 -, pois queiramos ou não
a Alca terá de ficar para depois que a tormenta passar.Alcides
Amaral é jornalista e presidente da Associação
Brasileira de Bancos Internacionais.
Jornal
do Brasil / Opinião / 26 de Outubro de 2001