O
MUNDO FOI ATACADO
Fonte:
IstoÉ - 24/10/2001
O
ex-secretário de Defesa William Cohen elogia o papel
do Brasil na reação aos atentados terroristas
e chega ao País para promover a Alca
Quando
o ex-presidente democrata Bill Clinton escolheu o republicano
William S. Cohen para ser o 20º secretário de Defesa
dos Estados Unidos, em 1996, pouca gente se surpreendeu. Cohen,
na época senador pelo Estado do Maine, onde nasceu, era
considerado um dos pensadores mais independentes do Congresso.
Logo no início de carreira, por exemplo, ele rompeu com
a linha partidária e votou pelo impeachment do ex-presidente
Richard Nixon, em 1974. Depois, nos anos 80, durante o governo
Ronald Reagan, novamente o senador entrou na contra mão
da via republicana ao criticar duramente o presidente no episódio
Irã-Contras - manobra complicada e ilegal patrocinada
pela Casa Branca para vender armas aos inimigos de Teerã
e repassar o dinheiro assim obtido para os "contras",
a guerrilha anti-sandinista da Nicarágua. Ao assumir
o posto no Departamento de Defesa, em janeiro de 1997, Cohen
levou na bagagem mais de 25 anos de "expertise" comprovada
nas áreas de inteligência e defesa - temas das
comissões parlamentares de que fez parte.
Também não é de estranhar que agora, quando
um presidente republicano novamente ocupa a Casa Branca, Cohen,
aos 59 anos, tenha sido convocado para contribuir na guerra
que Washington move contra o terrorismo. Do Salão Oval,
onde trabalha o presidente George W. Bush, aos corredores do
Pentágono - que o ex-secretário conhece tão
bem -, sua presença tem sido notada constantemente entre
aqueles que mergulham na dramática crise criada pelos
ataques terroristas de 11 de setembro. Paralelamente às
suas funções extra-oficiais no governo, Cohen
também acelera suas atividades na área privada.
Ao deixar a Secretaria de Defesa, em janeiro deste ano, ele
montou a empresa Cohen Group, que presta consultoria de negócios
a países latino-americanos, antecipando soluções
para a criação de um mercado comum que vá
desde o Alasca até a Terra do Fogo, na Argentina. Um
dos primeiros passos nessa jornada foi sua aceitação
em participar do board de diretores do banco brasileiro Brasilinvest.
E é também nessa condição que Willian
Cohen chega ao país neste domingo 21 para conversar com
o presidente Fernando Henrique Cardoso e ainda falar na conferência
do Fórum das Américas que se realiza nesta semana
em São Paulo. Mas, antes, o ex-secretário da Defesa
americano falou com exclusividade a ISTOÉ em Nova York
sobre economia, política e os choques provocados pelos
atentados terroristas a seu país no dia 11 de setembro.
ISTOÉ
- Muita gente ao redor do mundo não concorda com a convocação
americana para a guerra contra o terrorismo. Por que países
como o Brasil deveriam pular nesta trincheira?
William
Cohen - Quando os Estados Unidos são feridos, o mundo
sangra. Ou seja: quando temos uma queda em nossa economia -
e antes de 11 de setembro essa tendência de queda já
se fazia sentir - o impacto ao redor do mundo é enorme.
Sofrem setores econômicos internacionais como o turismo,
o comércio, enfim, áreas importantes das economias
de outros países. E agora temos vimos os efeitos econômicos
dilacerantes que os ataques de 11 de setembro causaram e ainda
vão causar no mundo. Como os empregos que foram perdidos,
resultado dos ataques. Os consumidores americanos estão
fechando as carteiras, com medo do futuro, e isso esvazia o
mercado para produtos de outros países. Artigos fabricados
no Brasil ou em outras nações não têm
mais a mesma saída, o que prejudica também a economia
de cada uma dessas sociedades. Também é importante
que os outros países entendam que este não foi
somente um ataque contra os Estados Unidos. Não se tratou
de um ataque isolado contra as torres do comércio americano.
Foi um ataque contra as torres do comércio mundial. Muitos
países estavam representados por seus cidadãos
naqueles prédios do World Trade Center. Muitos países
também sofreram grandes perdas de vidas humanas. Este,
portanto, foi realmente um ataque contra sociedades livres e
abertas, por gente vinda de setores fanáticos. Estes
extremistas islâmicos estão usando as liberdades
de sociedades abertas para destruir esses conceitos. Assim,
todos os países têm algo a perder nesta guerra.
É por isso que fiquei muito satisfeito com a reação
de liderança do governo brasileiro.
ISTOÉ
- Qual é o propósito desta sua visita ao Brasil?
Cohen
- Estive em Manaus um ano atrás para o encontro dos ministros
da Defesa das Américas. O propósito daquela minha
visita era fazer um trabalho conjunto para aprofundar a democracia,
a estabilidade e a prosperidade na região. Infelizmente
só pude ficar um período de tempo muito curto,
pois tive de voltar quase imediatamente para comparecer à
solenidade de retorno dos corpos dos militares mortos no ataque
ao destróier USS Cole. De qualquer modo, o processo que
saiu daquele encontro de Manaus se ancora na premissa simples
de que as 34 democracias das Américas, da fronteira norte
do Canadá à Terra do Fogo, tem de trabalhar em
conjunto nas questões transnacionais. Questões
como terrorismo, desastres nacionais, combate aos tráficos
de armas e narcóticos. Este era o motivo naquela viagem
e também na minha ida de agora, as mesmas premissas são
particularmente relevantes, especialmente depois dos eventos
de 11 de setembro. Além disso, também atendo a
negócios da área privada. Minha visita agora ao
Brasil, a maior democracia entre os países em desenvolvimento,
portanto, tem dois objetivos especiais. Retomar com as autoridades
do governo e líderes empresariais as conversas que iniciamos
em Manaus e discutir as maneiras de promover oportunidades e
desenvolvimento econômico entre a região e os Estados
Unidos.
ISTOÉ
- E depois de Manaus, houve algum progresso prático nas
áreas que o sr. menciona?
Cohen
- Eu realmente fiquei muito sensibilizado com a cooperação
do Brasil diante dos atentados sofridos pelos Estados Unidos.
O Brasil assumiu liderança ao evocar a cláusula
de segurança do Tratado de Assistência Recíproca
(Tiar), o tratado do Rio. Os serviços de inteligência
brasileiros estão investigando as atividades nas fronteiras,
o Banco Central investiga as manobras monetárias que
resultam nos envios de recursos financeiros para a Al-Qaeda.
Tudo isso é um demonstração clara dos resultados
práticos positivos. Também gostaria de mencionar
que minha visita de agora é estimulada pelo fato de eu
ter recentemente assumido posição no board de
diretores da empresa brasileira Brasilinvest.
ISTOÉ
- Já que o sr. mencionou esse aspecto, qual o motivo
dessa sua entrada no board de uma empresa brasileira e quais
são suas atividades na área privada?
Cohen
- Depois de eu ter saído do Pentágono, estabeleci
uma empresa de consultoria de negócios internacionais,
chamada Cohen Group. O propósito da empresa é
ajudar a promover investimentos estrangeiros no Brasil e em
toda América Latina. Em consequência disso, era
natural eu ter me juntado ao board do Brasilinvest.
ISTOÉ
- O sr. também vai participar da conferência do
Fórum das Américas, em São Paulo. Qual
será o tema de sua palestra?
Cohen
- Vou falar sobre as oportunidades e riscos de um mercado comum
das Américas (Alca) e também das implicações
político-econômicas desses ataques de 11 de setembro.
Quero apresentar idéias de como melhorar nossas economias
para torná-las interdependentes. Além disso, como
ex-secretário de Defesa, vou falar sobre as possibilidades
de melhorar a defesa das Américas através da cooperação
militar.
ISTOÉ
- Na sua opinião, qual será o próximo passo
nesta guerra ao terror? Especificamente: depois que as bombas
caíram no Afeganistão e os alvos foram sumindo,
qual será a estratégia?
Cohen
- As bombas foram utilizadas para reduzir ou eliminar a capacidade
de reação aérea do Taleban e obliterar
suas defesas. Também foram atingidos depósitos
de munição e armamentos. O próximo passo,
acredito, será mais atividades de forças especiais,
como a Delta Force e os Rangers, por exemplo. Eles irão
atrás das forças terrestres do Taleban. Dessa
forma, os caminhos para os ataques das forças de oposição
ao regime ficam desobstruídos. E acredito que vamos ver
a força desses grupos de oposição contra
o regime, que forçará o Taleban a reconhecer que,
para sobreviver, terá de concordar com as exigências
do presidente Bush, entregar Osama Bin Laden e desistir de manter
campos de treinamentos para terroristas. Outro passo importante
será o esforço para eliminar o comércio
de ópio na região. A heroína que vem do
Afeganistão será um dos alvos desta próxima
etapa de ofensivas. Sabe-se que as vendas de drogas dão
apoio financeiro aos terroristas. E as ações,
certamente, irão além desses tópicos: já
existem ações firmes para acabar com o fluxo financeiro
que utiliza empresas e sociedades de fachada para encaminhar
capital para o terror. E os países que têm tolerado
atividades terroristas devem ser forçados a prender os
membros dessas organizações. É preciso
cortar os tentáculos do terror que se espalham por tantos
países.
ISTOÉ
- Durante o seu mandato no Departamento de Defesa, o governo
americano tentou prender ou eliminar Osama Bin Laden. Ele se
provou um alvo difícil. O sr. acredita que é possível
agarrá-lo agora?
Cohen
- Acho que as chances existem. Mas gostaria de alertar que Osama
Bin Laden é apenas um indivíduo - a figura mais
proeminente - e que no momento recebe nosso foco. Mas neutralizá-lo
não implicará o fim da guerra contra o terrorismo.
Acho que o presidente Bush deixou bem claro que esta será
uma campanha de longa duração. Existem várias
organizações pelo mundo que operam independentemente.
Algumas agem de modo interdependente, mas existem várias
formas de terrorismo e várias organizações
para implementá-las. De todo modo, acredito que Osama
Bin Laden será capturado. Acho que o Taleban, ou a Aliança
do Norte, ou outro grupo, em certo momento vai acabar entregando
Osama.
ISTOÉ
- O sr. não acha que essa guerra prolongada corre o risco
de se transformar na mesma história sem fim da chamada
guerra às drogas?
Cohen
- Bem, essa guerra contra o terror será uma campanha
muito difícil de dizermos com certeza quando ela finalmente
acabará. No fim, essa luta vai exigir que o mundo civilizado
continue a vigilância contra grupos ou indivíduos
terroristas. Também exigirá que os países
que acobertam essas figuras comecem a construir instituições
que obedeçam as regras da lei, espalhem os benefícios
da democracia e incentivem a prosperidade de todos os seus cidadãos.
Sempre que vários setores são marginalizados numa
sociedade, com gente vivendo na miséria, sem esperança,
também se terá o terreno fértil para que
germinem futuros terroristas. Assim, acho que o futuro vai exigir
grande esforço em vários níveis de atuação.
Basicamente, temos de eliminar cada vez mais os aspectos violentos
desta guerra e depois promover o império da lei, da transparência
e da justiça nas sociedades de todo o mundo. É
fundamental que o povo também receba os benefícios
das riquezas dos paises. Por isso, a guerra vai consumir um
longo tempo, e nós não podemos ter certeza de
quando ela vai terminar.
ISTOÉ
- Dadas as circunstâncias, qual deveria ser a política
americana com relação à questão
palestina?
Cohen
- Sempre defendi a idéia de que este governo deveria
se envolver mais nos esforços para patrocinar uma reconciliação
entre os palestinos e Israel. Algo que o governo Clinton tentou
fazer com tenacidade, chegando muito perto de obter sucesso.
Pensei que tínhamos uma grande oportunidade para conseguir
uma paz duradoura, durante as conversas no outono passado em
Camp David. Mas, infelizmente, não foi possível.
Acho que, inicialmente, houve no governo Bush uma tendência
a dizer às partes do conflito que os Estados Unidos não
tinham mais condições do que israelenses e palestinos
de promover a paz. Sendo assim, o governo americano esperaria
até que as duas partes se cansassem da guerra e resolvessem
voltar à mesa de negociação. Acredito que
agora o governo Bush compreende que os Estados Unidos têm
de atuar mais neste conflito e não pode ficar fora do
processo de paz. A prova dessa mudança de linha são
as declarações do secretário de Estado,
Colin Powell, insistindo para que a violência na região
seja contida e que também cessem os assentamentos de
terras por colonos israelenses. Pediu ainda o fim dos atentados
terroristas pelos palestinos e, ao mesmo tempo, que Israel deixe
de caçar militantes palestinos. Desse modo, poderíamos
obter um cessar-fogo efetivo, com os esfriamentos das tensões,
o que seria condizente com o que aconselhou a Comissão
Mitchel (a comissão internacional encarregada de recomendar
estratégias para a paz na região). A partir daí,
volta-se à mesa de negociações para procurar
soluções para os conflitos. Até que isso
aconteça, vamos continuar vendo violência no Oriente
Médio.
ISTOÉ
- A revista ISTOÉ recebeu informações de
fontes dos serviços de inteligência de vários
países confirmando a participação do Iraque
nos atentados de 11 de setembro e até em outros ataques
anteriores. O sr. acredita que o governo de Saddam Hussein será
o próximo alvo dessa campanha?
Cohen
- Ainda se debate até que ponto essa campanha vai progredir.
Nós precisamos mostrar evidências da participação
do Iraque para convencer outros países que ajudam os
Estados Unidos nesta guerra. Do contrário, nos arriscaremos
a dividir esta aliança. Sei que existem várias
pessoas dentro do governo americano que advogam o ataque a Saddam
Hussein. Mas acho que o mais importante agora é manter
a coalizão que temos hoje. Acho que, no momento, o governo
tem de se concentrar no Taleban e na Al-Qaeda. (Osmar Freitas
Jr.)
IstoÉ
/ Entrevista / 24 de Outubro de 2001
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