"São Paulo: Espaço/Tempo"

15 de Março a 24 de Abril de 1983, Brasilinvest Plaza, São Paulo, SP, Brasil

Introdução

O Planalto Paulistano e a Evolução Urbana de São Paulo

A cidade de São Paulo nasceu e cresceu num verdadeiro compartimento de planalto colinoso. Um planalto. Um sistema de Colinas. Dois vales principais, com largas planícies. Numerosos riachos sulcando as colinas e serpenteando pelas planícies, até se fundir com as grandes várzeas do Tietê e do Pinheiros.
O primeiro nome recebido por esse planalto, não muito distante da Serra do Mar, foi o de Planalto de Piratininga. Hoje se dá o nome geral de Planalto Atlântico a todo o conjunto de Planaltos e pequenas serras que vem desde a Bocaina, Vale do Paraíba e Mantiqueira até a alongada faixa de terras altas da Serra de Paranapiacaba. E, se reserva o nome de Planalto Paulistano para a região das colinas, planícies e terraços fluviais da bacia hidrográfica Tietê-Pinheiros, na região de São Paulo.
O Planalto Paulistano e seu sistema de colinas é envolvido e parcialmente limitado por uma série de pequenas serras descontínuas e, originariamente dotadas de grandes matas: a Cantareira, o Jaraguá, o Morro Grande. Mais para leste, p'rás bandas de Mogi das Cruzes: o Tapeti e o Suíndara.
Nos meados do século XVI o Planalto de Piratininga era dominado por uma densa cobertura florestal: a mata atlântica de planalto. Mais de 90% do espaço regional era certamente florestado. No entanto, existiam algumas manchas de cerrados no entremeio das grandes matas.
Ao longo das várzeas, nos setores mais permanentemente encharcados, existiam corredores de vegetação herbácea, opondo-se à vegetação densa das florestas de beira-rio. Nos "altos" do Jaraguá, em um pequeno setor de resistentes quartzitos, expunham-se grimpas rochosas esbranquiçadas: uma minúscula "ilha" de campos rupestres.
Os famosos "campos de piratininga" não passavam de uma série de clareiras, dispostas a diferentes alturas. As "ilhas" de cerrados que pontilhavam as colinas. Os charcos não florestados das várzeas. As garimpas desnudas dos altos picos do Jaraguá.
O Planalto de Piratininga já era povoado antes da chegada dos colonizadores portugueses. Grupos tupis ocupavam a região, um pouco por toda parte. Aproveitando-se das clareiras existentes nas colinas, nas várzeas e nos patamares de colina, eles encontraram sítios naturais, para construir suas tabas. Rios e riachos piscosos ofereciam água potável e alimentação farta e continuada. As grandes matas possuíam o mínimo de caça necessária aos homens que primeiramente povoaram o planalto. Por ocasião dos frios, os tupis do planalto desciam pelas encostas íngremes da Serra do Mar, através de trilhas por eles próprios estabelecidas à custa de descobertas sucessivas.
A primeira geografia do Planalto, da Serra e da Beira Mar foi elaborada pelos próprios tupis. A toponímia regional era uma lição de geografia descritiva e pragmática. Piratininga significava "lugar onde o peixe podia ser apanhado a seco". Jaraguá: "pico alto no meio dos campos". Butantã: "terrenos socados", solos firmes, verdadeiros terraços. Paranapiacaba: "lugar de onde se avista o mar". Engá-guaçus: morro grande com forma de pilão. Caá-guaçu: grandes matas, as matas do Espigão Central das colinas paulistanas e seus flancos.
No entanto, a Serra do Mar separava por demais o Planalto do Litoral e de seu porto. Enquanto a barreira da Serra não pode ser vencida, os portugueses do planalto muito pouco puderam fazer para desenvolver a economia regional. Atiraram-se à dura tarefa de explorar o território do país, de conhecer o território, de aprisionar indígenas aldeados pelos jesuítas espanhóis. E, sobreviviam no Planalto, à custa de boas alianças com os povos tupis, desenvolvendo roças e pequenas fazendas, suficientes para garantir a continuidade de uma rústica comunidade de portugueses no Novo Mundo. No litoral havia pouco espaço para atividades agrárias rendosas. De um lado estava a Serra do Mar e seus íngremes costeiros, onde se instalaram pequenos engenhos, impotentes para competir com as grandes plantações de cana-de-açúcar do Nordeste.
Na região de São Paulo, quem sai do nível das várzeas encontra uma verdadeira escada de terraços e patamares.
As planícies estão em níveis de altitude variando entre 718 metros (confluência Tietê-Pinheiros, nas áreas do atual "Cebolão"), até 722-723 metros, próximos ao principal bairro da várzea de São Paulo, a Vila Maria.
Os "altos" das colinas situam-se pouco acima de 800 metros: na Avenida Paulista, no Jabaquara, no Sumaré. Próximo à caixa d'água do Sumaré encontra-se o ponto mais alto de todas as colinas paulistanas: 831 metros de altitude.
Entre os pontos mais baixos do sítio urbano de São Paulo (718 metros) e os pontos mais altos (831 metros), há uma diferença de 113 metros. Um nível intermediário de patamares de colinas, situado entre 740-750 metros teve grande importância para o desenvolvimento urbano da cidade, desde os meados do século XVI. Trata-se do nível de colinas correspondentes à Praça da Sé-Pátio do Colégio, que se estende além-Anhangabaú na área da Praça da República-Praça Ramos de Azevedo e setores da Avenida São João e do Bairro Santa Ifigênia.
Em todas as épocas de sua história - desde a sua fundação em 1554 - a cidade preferia as colinas para sua implantação e expansão urbana. Tendo nascido num interflúvio de topo quase plano, entre os vales do Tamanduateí e do Anhangabaú, onde foi erigido o colégio dos jesuítas, a cidade por mais de três séculos ficou acantonada nesta colina central, distante dos grandes rios e muito próxima do piscoso e labiríntico riacho Tamanduateí.
O sítio original de São Paulo - em pleno planalto - era um testemunho de uma escolha típica de uma época. O colégio foi construído num alto patamar encostado às grimpas de uma colina notavelmente assimétrica, numa espécie de mirante natural que possibilitava dominar com a vista amplos espaços para as bandas do Brás, da Moóca, do Pari, e do Canindé. O colégio representava um marco de uma cruzada fé. O sítio escolhido para sua implantação documentava o bom senso dos evangelizadores. Mesmo no planalto, longe dos perigos vindos do Exterior, era preciso se resguardar dos perigos vindos da retaguarda, pela presença de grupos não amigos. E a crônica da cidadezinha, por todo o século XVI e grande parte do século XVII, foi um atestado do bom senso do jesuítas que escolheram o sítio inicial da pequena aglomeração urbana, de tão grande significação histórica. Dali partiram entradas e bandeiras. Dali foram reconhecidas as rotas do interior distante. Dali progrediu o povoamento do planalto na direção do Vale do Paraíba e na direção da Depressão Periférica Paulista. Dali se preparou o argumento para a conquista de um infindável conjunto de planaltos, que resguardava imensas riquezas potenciais. Solos férteis. Caudalosos rios de planalto. Ferro e ouro. Manganês e diamantes. E, sobretudo os argumentos decisivos para a ampliação do território para além da linha de Tordesilhas. No dizer do poeta: "eles vergaram a vertical de Tordesilhas". Eles: os primeiros povoadores das terras de "serra-acima". Bandeirantes, sertanistas e homens de uma fronteira recuada.

Evolução Urbana de São Paulo

Século XVI

São Paulo de Piratininga era sobretudo um marco no espaço no Interior do Planalto Paulista. Cidade mais índia do que portuguesa, desde o início, até os fins do primeiro século. O sítio original era uma colina em forma de pequeno pontal alto, no ângulo interno da confluência dos rios de Piratininga: o Tamanduateí e o Anhangabaú. O marco no espaço era um Triângulo de ruas. A edificação dominante era o Colégio dos Jesuítas. Nas ruas palhoças e casas baixas construídas com os materiais colocados à disposição dos colonizadores: ripas e arboretos e palha de palmeiras. Um sítio em acrópole para vigilância e defesa, com ampla visão dos terrenos baixos e alagadiços das bandas do Brás, Moóca e Pari.

Século XVII

No século XVII a cidade dominou sua região e os paulistanos transformaram-se em heróicos exploradores dos sertões desconhecidos. A cidade dos jesuítas transformou-se na cidadezinha dos bandeirantes. Algumas melhorias no sistema de construção. Uma nova mão de obra de reinóis recém-chegados e de índios incorporados à sociedade planaltina tornou irreversível a implantação européia nos planaltos da América do Sul. Roças, sítios e fazendolas passam a garantir a continuidade do novo sistema de povoamento. Um forte contingente indígena, de ares interiores, acrescenta-se aos descendentes dos primeiros troncos ameríndios e portugueses.

Século XVIII

Em 1800 a cidadezinha ainda era um pouco da cidadela dos jesuítas e da cidade dos bandeirantes. O século XVIII apresentou menos densidade de fatos históricos. São Paulo permaneceu à margem da nova rede de cidades criada no Quadrilátero do Ouro, em Minas Gerais. As cidadezinhas do Vale do Paraíba paulista, que imitaram São Paulo de Piratininga em quase tudo, ajudaram a encontrar a rota do ouro. Mas cedo, também foram marginalizadas, por uma série de ocorrências dramáticas (Guerra dos Emboabas, abertura do Caminho Novo). Disso tudo resultou que ao término do III século de colonização, São Paulo de Piratininga não passasse de um vila fisicamente decadente, vivendo de sua grande memória bandeirista. Uma melhoria do seu organismo urbano, entretanto, foi realizada à custa dos esforços do Morgado de Mateus (1765). Faltavam estímulos econômicos dinamizadores, a nível regional. Infelizmente.

Século XIX

Até meados do século XIX o desenvolvimento da Província de São Paulo se mediu pelo crescimento geral da rede urbana. As cidades do Vale do Paraíba, fundadas no século XVII, e, que haviam permanecido estagnadas após a abertura do Caminho Novo e o surgimento das cidades-do-ouro em Minas Gerais, foram como que fundadas de novo. Os portos tiveram seu primeiro momento de esplendor econômico. Uma segunda fundação generalizada de cidades litorâneas e planaltina foi marcada sobretudo pela arquitetura dos casarões e sobradões imperiais que se acrescentaram à modesta paisagem urbana herdada do século XVII. São Paulo de Piratininga sofreu uma relativa demora em relação aos benefícios do ciclo do café. E, somente deslanchou após o início da era ferroviária. Foram as ferrovias de ligação entre o litoral e o Planalto à altura de São Paulo - e as penetrações ferroviárias para Leste, Oeste, Norte e Nordeste - que deram uma nova posição geográfica à cidade dos jesuítas e dos bandeirantes.

1881

Com a instalação das ferrovias, o binômio São Paulo e Santos adquire uma posição privilegiada em relação ao processo de urbanização, com base sobretudo no comércio de café e na intensificação da importação de produtos industriais da Europa. Pela primeira vez a cidade atingiu o porte de uma cidade média, para a época, 40.000 habitantes; 2 km2 de espaço urbanizado. Um comércio ativo. As primeira iniciativas de uma nova burguesia urbana.

1910

Entre 1880 e 1910 a cidade de São Paulo ganhou foros de Capital Regional. Sua população urbana que era de apenas 40.000 em 1880 passa sucessivamente a 50.000 em 1887, 240.000 em 1900, alcançando 375.000 em 1910. Os "saltos" demográficos refletem diversos acontecimentos históricos: interiorização e aceleração da produção do café, desdobramento da rede urbana do interior, comandada pela Capital, abolição da escravatura e a Cidade de São Paulo. A cidade triplicou o seu espaço urbano, em relação a 1880, adquiriu uma série de bairros com reticulados mais ou menos independentes, à margem do Tradicional Triângulo Central, e, caminhou pelas margens das ferrovias, com as primeiras instalações industriais e bairros populares. Chácaras e chácaras, do passado colonial, transformaram-se em embriões de bairros.

1955

Até 1930 a área comprometida pelo regime urbano no Planalto Paulista era grosso-modo aquela da atual Metrópole Interna. A cidade ocupava um pouco menos do que o espaço físico das colinas que antecedem a confluência Tietê-Pinheiros. Era mais uma cidade do vale do Tietê - margem esquerda - do que uma verdadeira cidade do Planalto Paulistano. No entanto, já se haviam esboçados os núcleos básicos do ABC, e alguns bairros de além-Tietê (Santana, Casa Verde, sobretudo).
Em 1955 a cidade alcançou plenamente os limites das colinas sedimentares do Planalto Paulistano, tresdobrando seu espaço urbano. Havia uma cidade compacta - mais ou menos contínua - entre o Tietê e o Pinheiros, da Penha à Lapa. Outra cidade, ainda que pouco articulada regionalmente estendia-se além-Tietê. Uma estrada de ferro liliputiana saia do bairro do Oriente (rua Cantareira) ligando o núcleo subcentral à Cantareira-Gopouva-Guarulhos. As indústrias ficaram concentradas, linearmente ao longo das ferrovias que desmandavam Santos, Vale do Paraíba e o interior ocidental.
A cidade que em 1930 possuía 130 km2 de área de 1.000.000 habitantes, no início de 1955 alcançava um espaço urbano de 420 km2 e uma população urbana de 3.000.000. Seu traçado era tipo rigorosamente monocêntrico e tentacular. Subúrbios industriais pontilhavam as portas da cidade, com subnúcleos de pouco dinamismo urbano. O Centro ainda era o velho Triângulo acrescido de um núcleo mais moderno (Praça Ramos, São João, Ipiranga), ligados por viadutos construídos em diferentes épocas. E, sobretudo, a cidade atingia foros de Metrópole, com funções multivariadas, dominada pela expansão da industrialização.

1979

Em 25 anos de crescimento urbano excepcional, em área e em densidade arquitetônica, a Metrópole tentacular passou a uma Metrópole nebular.
Extravasou os limites das colinas do Planalto Paulistano e fez pressão sobre morros e áreas de topografias mais acidentadas e menos suscetível a uma processo de urbanização em quadras reticuladas. A industrialização tornou-se abrangente e sofisticada. A conurbação entre a velha capital e seus subúrbios industriais do passado, tornou-se totalizante. Terminado ou diminuído o fluxo da imigração européia e asiática, a cidade atraiu mão-de-obra, pouco especializada, de todo o país. Tornou-se, sobretudo, na sua periferia uma grande cidade proletária formada por brasileiros provenientes de todos os quadrantes.
Na Metrópole Interna processaram-se relocações do Centro (Paulista, Faria Lima), advento da primeira linha do Metrô, compressão das edificações urbanas, diferenciação funcional até os limites das funções de todas as grandes metrópoles modernas. Uma das antigas avenidas de São Paulo é hoje uma artéria de paisagem e importância internacional, marcando a paisagem metropolitana de São Paulo, tal qual a Quinta Avenida de New York ou a avenida "Champs Elisées" de Paris: a Avenida Paulista, símbolo do moderno desenvolvimento da grande metrópole, crescida no planalto, à altura do Trópico de Capricórnio.


Equipe

Coordenação Geral: Maria Aparecida Lomonaco

Projeto: Júlio Abe Wakahara e Cristina Monteiro Dias

Montagem: Nivaldo Aguiar

Pesquisa e Texto: Aziz Nacib Ab'Saber

 
 
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